domingo, 25 de maio de 2008

A FONTE DA VIDA  


A Música das Esferas




(The Fountain)


Explorando o aterrador sonho da eternidade, A Fonte da Vida (The Fountain, 2006), último longa-metragem do diretor Darren Aronofsky, autor de filmes tão singulares e polêmicos como Pi (1998) ou Requiem para um sonho (Requiem for a Dream, 2000), parece buscar humanizar a atmosfera fria e cética que mantinha nas suas primeiras incursões. Da mesma forma, com irretocável habilidade, Clint Mansell, no melhor trabalho de sua carreira, estabelecida essencialmente em cooperação com este mesmo diretor, construiu uma partitura singela e ao mesmo tempo grandiosa na ressonância de sensações.


A Imagem


Darren Aronofsky tem demonstrado sua particular visão através de uma cuidadosa exploração fotográfica em seus filmes. Primeiro em PI e sua fotografia em preto e branco, depois nas cores saturadas de Requiem for a Dream. A Fonte da Vida igualmente potencia uma fotografia excepcional caracterizada por um espectro de cores argilosas e quentes. Esse ardor contrasta, sobretudo, com a história da enfermidade de Izzi (Rachel Weisz). Essa história recebe uma maior quantidade de planos em tonalidades mais frias acompanhando Tom (Hugh Jackman, na melhor interpretação de sua carreira) na luta contra um titânico adversário: o câncer de sua esposa.


Mas sem duvida os desenvolvimentos das histórias de Tomas e Tommy (passado e futuro) são os que apresentam as imagens mais fascinantes. Poderia citar a cena do conquistador encontrando no alto de um templo Maia a Árvore da Vida, enigmática. Também a imagem da esfera viajando de encontro a uma decrépita estrela através do espaço com seu solitário habitante e uma gigantesca árvore que o alimenta. Talvez sejam as mais belas imagens desta história.


A Música


Para aqueles que se deliciaram com a música de Clint Mansell para Requiem for a Dream, em A Fonte da Vida encontrarão a perfeição. Uma partitura mais variada, com a presença de três leitmotivs cíclicos relacionados cada qual a uma das diferentes histórias que resultam em uma excelente partitura para piano nos créditos finais.


O primeiro tema, o mais elaborado dos três, relacionado a Tommy, o homem do futuro, repleto de solidão e quietude, tendo a base quase que exclusivamente de Violino solo, pode ser escutado em "The Last Man" (Faixa 01).


O segundo tema, ouvido em "Tree of Life" (Faixa 03), relacionado a Tomas, o homem do passado, o conquistador, estranhamente recebe uma instrumentação mais moderna (guitarras, banjo e bateria). O leitmotiv alcança mais presença e força graças à percussão ostensiva. Possui um ar obscuro que funciona perfeitamente com o sentido enigmático da Árvore da Vida.


O terceiro tema que podemos ouvir em "Stay with me" (Faixa 04) está relacionado a Tom, o médico e sua contínua luta contra a morte. Este tema de base exclusivamente eletrônica é o mais nostálgico e está conectado com as recordações que Tommy tem de sua mulher.


O compositor não se restringe a usar apenas esses temas. O elo condutor de todas as histórias tem um nome: Xibalba. O tema que podemos escutar na faixa 06 do disco reúne toda a solenidade que se espera do conceito Maia centrado na morte como criação da vida. Este tema se desenvolve com forte carga romântica que conecta as relações de amor presentes. O violino e um coro quase imperceptível constroem a atmosfera para descrever esta estrela agonizante que guia os personagens a um mesmo desenlace: o renascer.


As três melhores faixas do disco são justamente a três últimas e já trazem em si todo desenvolvimento temático perpetrado durante o filme.


"Finish It" (Faixa 08) retoma o leitmotiv de Tomas, o Conquistador, com inusitada força, tanta que contagia a história futura na figura de Tommy (Tom), impulsionado-o a se recordar de sua amada e seu desejo de ver a história terminada como buscando a libertação.


"Death is the Road to Awe" (Faixa 09) é a maior faixa do álbum e acompanha a impressionante trajetória até a explosão de Xibalba, um frenético momento musical onde guitarras elétricas, bateria, cordas e o coro convergem para nos dar um colossal momento áudio-visual.


"Together we will live forever" (Faixa 10) apazigua a explosão de sensações da faixa anterior por meio de um comovente solo de piano que recorre aos temas de cada história, entrelaçando-os e relacionando-os. Vemos, então, os créditos finais.


Esta ousada partitura de Clint Mansell se sustenta, de modo determinante, na interpretação do Kronos Quartet, quarteto de cordas fundado pelo violinista David Harrington em 1973 e que já havia trabalhado com Mansell em Requiem for a Dream. Neste álbum também encontramos o grupo escocês Mogwai de post-rock, para aqueles que estão familiarizados com este estilo musical, embasado principalmente em composições instrumentais inspiradas no Jazz de Miles Davis, rock progressivo e de forte sabor eletrônico, não se surpreendem com a sonoridade peculiar e coesa que descobrimos em vastos momentos. Surpreendentemente, a fusão entre grupos tão heterogêneos é total.


A Eternidade


Em A Fonte da Vida viajamos pelos labirintos da existência humana até os seus confins. As suas três histórias paralelas destilam paixão, nostalgia, e acima de tudo, transcendência. Romântico e barroco, neste filme sonhamos a eternidade do espírito humano e de um amor indestrutível.


Who wants to live forever? A ironia desta interrogação, expressa e desenvolvida na letra da banda musical Queen, expressa com propriedade o enredo deste filme: a vida, esta vida, não faz sentido sem a morte. Paradoxalmente nossa fantasia tenta a todo instante justificar nossas ações pautadas num cego desejo de imortalidade.


Um de seus grandes atrativos, é sem dúvida a forma como contando a mesma história através dos tempos e de realidades alternativas, joga com a filosofia desafiando a imaginação do expectador.


Na Espanha do século 16, o navegador Tomas parte para o Novo Mundo em busca da lendária Árvore da Vida para salvar sua amada rainha. Nos tempos atuais a mulher do pesquisador Tommy está morrendo de câncer e ele busca desesperadamente a cura que pode salvá-la. Uma terceira história une as duas primeiras: no século 26, o astronauta Tom finalmente consegue a resposta para as questões fundamentais da existência.


Ao final fecha-se o círculo num "Eterno Retorno" Nietzscheniano. Testemunhamos um universo limitado no espaço e infinito no tempo. Neste mesmo universo após se esgotarem todas as combinações possíveis de seus elementos (como cartas de um baralho), estas combinações passam a se repetir indefinidamente. Da mesma forma todas as mais insignificantes variantes possíveis na vida de qualquer pessoa, na vida de qualquer animal, de qualquer planta ou ser, de qualquer átomo, de qualquer elétron, seriam vividas da mesmíssima forma eternamente.


Em seu desenlace as três histórias confluem em uma mesma mensagem. Diferentemente do que se costuma pensar, eternidade e imortalidade não são coisas iguais. O eterno distingui-se do imortal por não ter princípio nem fim, não é a soberba vida sem seu termo. Neste filme concluímos que nada caminha em linha reta. Nada tem um começo ou um fim. Tudo é um infinito e gigantesco ciclo de repetições, de combinações finitas. Estamos eternamente condenados a repetir exatamente o que eternamente estamos a repetir.


A Fonte da Vida é um presente aos olhos e se perpetua em nossa memória. A música de Clint Mansell funciona com idêntica eficácia: enigmática, atraente, obscura, onírica, nostálgica, inspiradora e poderosa.


Alem de tudo, esta história nos trás o seguinte questionamento que inquire nosso espírito: amamos ou não a vida? Se tudo retorna - o prazer, a dor, a angústia, a guerra, a paz, a grandeza, a pequenez — se tudo torna, isto é um dom ou uma maldição? Seríamos capazes de amarmos a vida que temos - a única vida que temos - a ponto de querermos vivê-la tal e qual ela é, sem a menor alteração, infinitas vezes ao longo da eternidade? Sofrendo e gozando da mesma forma e com a mesma intensidade? Temos tal amor ao nosso destino? - Eis a grande indagação que é o Eterno Retorno, uma das maiores da filosofia e, agora também, do cinema.

RAMBO  

A música épica de um herói decadente

Por fim, o que era pouco provável e até mesmo indesejável, aconteceu: em pleno século XXI, Rambo, um dos ícones do final da Guerra Fria, ressurgiu para as telas (John Rambo, 2008, 102 min) como eco de um ideal esquecido e decadente. Após a lastimosa morte do Maestro Jerry Goldsmith em 2004 que, de forma magistral, compôs para a trilogia inicial deste herói, esperava-se que um compositor de qualidade pudesse neste novo filme dar continuidade a sua herança. No entanto, na audição desta partitura a percebemos fria e desigual. Decepcionando os que confiaram na habilidade de Brian Tyler (AVPR, 2008) para recriar a música do herói.


O cinema dos anos de 1970 e 80 deu a luz a personagens que deixaram sua marca nas bilheterias das salas de cinema e nas retinas de seus espectadores entre eles, Rambo. Essa forma de fazer cinema, focada no público jovem, iniciada com Star Wars (1977) e desdenhada pela crítica, impulsionou uma revolução que marcou a história da música em plena era das frívolas modernidades eletrônicas e dos "dabadabadas" das trilhas de Francis Lai, que em 1970 ganhou o Oscar pela trilha musical de "Love Story".


Em uma época em que quase todos pareciam ter esquecido o instigante arrepio provocado pela música áspera e penetrante de Psicose (1960), a orquestra sinfônica, o anacronismo dos anacronismos, ressurgia. A trilha sonora original ganhava um novo significado, ampliava seu leque expressivo adquirindo um caráter envolvente que a posicionava não somente como acompanhamento da cena, mas preferencialmente como elemento importante na composição do significado narrativo proposto.


Nesta época, Jerry Goldsmith, já era considerando um veterano das partituras cinematográficas, apesar de não ser um nome tão conhecido pelo público como o de seus colegas que despontaram em Hollywood entre o final da década de '50 e o final da de '60: Henry Mancini, John Williams, Ennio Morricone e John Barry, tornados mundialmente conhecidos por suas trilhas orquestrais criadas basicamente entre as décadas de '70 e '80, Goldsmith era considerado um notável membro dessa elite. Mesmo o espectador ocasional reconhecerá facilmente alguns de seus trabalhos feitos para a TV e o cinema. E tendo sido um dos mais prolíficos compositores estadunidense, listar apenas uma parte das suas trilhas originais é uma tarefa árdua. O público e os críticos em geral sem dúvida mencionariam partituras como "Planet of the Apes" (1968), "Chinatown" (1974), "The Omen" que lhe conferiu o Oscar em 1976, Star Trek: The Motion Picture (1979), Alien (1979) e Poltergeist (1982). Ao longo do tempo, Goldsmith formou uma escola no meio musical cinematográfico, e mesmo tendo formação clássica nunca teve receio das inovações, sendo o primeiro compositor a manter uma seção fixa de instrumentos eletrônicos em sua orquestra, agarrando todos os tipos imagináveis de assuntos, com alto domínio estilístico.


Para as andanças de John Rambo, Goldsmith comporia um conjunto de partituras que se movia com prodigiosa facilidade entre o intimismo, refletido no melancólico tema associado ao veterano do Vietnam, e a ação mais enérgica, fiel reflexo do caráter hiperviolento do personagem.

RAMBO – Programado Para Matar

(First Blood, 1982, 92 min)

Composed by Jerry Goldsmith

A dupla de produtores Mario Kassar e Andrew Vajna, especialistas em filmes de ação, impelidos pela onda de partituras orquestrais de sucesso, convidaram Goldsmith para musicar "Rambo - Programado para Matar" (First Blood, 1982, 96min) que materializou a fantasia que está no inconsciente coletivo do americano, o indivíduo que enfrenta o sistema. O sistema sempre vence, mas o herói dá muito trabalho antes de desistir. Com a Guerra Fria a sociedade norte-americana necessitava seguir alimentando-se, através do cinema, de heróis com os quais pudessem se identificar. Necessitavam de um "super-homem" que lutasse pela nação americana, como havia a pouco feito e pregado, em claras palavras, o mesmíssimo Superman (1978). Desta maneira nasceu para as telas, sob a direção de Ted Kotcheff (Um Morto Muito Louco, 1989), o personagem heróico baseado no livro de David Morrel, denominado simplesmente Rambo, publicado em 1972. Seguindo a obra que o inspirou, o filme, assim como o livro mostra a história de um veterano da guerra do Vietnã que procura por seus amigos e que ao passar por uma pequena cidade é considerado um vagabundo pelo xerife local que o prende só por insistir em atravessá-la. Na prisão, os guardas o atormentam sem saber que estão reavivando situações que passou preso por vietcongues. Ao ultrapassar esse limite de consciência, Rambo foge da cadeia, sendo perseguido.


O personagem problemático e doentio do livro acabou por fugir de seu perfil original, tanto em sua primeira adaptação para o cinema, quanto em suas seqüências para assumir o figurino do herói defensor dos valores norte-americanos. Dez anos antes, Billy Jack (1971) seguira a mesma fórmula com igual simpatia do público, ele era um guerreiro, um místico, um mártir, um descendente dos índios americanos e ex-Boina Verde voltando a viver na solidão em uma reserva no Arizona. "Rambo" trouxe um novo ingrediente, a difícil adaptação dos veteranos da guerra do Vietnã. Enquanto Franco-atirador (Deer Hunter, The, 1978) e Apocalipse Now (1979) narram fatos que ocorreram no palco da guerra, "Rambo" tentava mostrar o lado negro da volta para casa, juntando-se a isso o exercício da autoridade com arrogância. Com tudo isso, "Rambo" acabou por solidificar a carreira de Sylvester Stallone que já havia conquistado fama mundial pelo personagem do boxeador Rocky, que roteirizou e interpretou com êxito em 1976, sob a direção de John Avildsen (Karate Kid, 1984).


O filme inicia-se com o tema "Home Coming", enquanto vemos na tela um solitário homem caminhando por uma estrada, o violão harpejando precede um solo de trompete que desenvolve o leit motiv do filme: uma melodia melancólica, que descreve precisamente o caráter solitário do protagonista em sua volta para casa. A secção de cordas da orquestra se apresenta para acompanhar o trompete e o violão, nos brindando com uma resolução final em que, unindo-se com madeiras e trompas, nos sopram a nostalgia de um tempo distante na memória de Rambo.


A partitura também nos apresenta o inquietante tema "Scape Route" em que, musicalmente, o compositor californiano se propõe a descrever os passos cautelosos de um fugitivo, seu personagem-tema, não de forma mímica e caricatural, mas delineando ânimos e gestos com uma competente e envolvente habilidade musical.


O caráter geral do trabalho está muito mais ligado ao suspense que a ação propriamente, e ainda que não faltem momentos onde o compositor faz uso de ornamentos de uma partitura pulsante e enérgica, se trata, em sua maior parte, de uma trilha sonora que tende para uma tensa espera que se resolve em elaboradas e espetaculares peças, marcas do trabalho de Goldsmith. Toda a trilha sonora está construída a partir da elaboração e reinstrumentação de um par de idéias geradoras, um sistema compositivo que acaba por render bons resultados. O aspecto melódico deriva do tema principal, onde um lento acompanhamento de violão serve de base a uma nobre e melancólica trombeta militar. E o aspecto rítmico que se define a partir de um pujante ostinato em que as notas graves do piano são encobertas pelo sintetizador, outro dos recursos típicos do artista que se propõe a inovar mesclando texturas orquestrais e eletrônicas. Amigo das métricas irregulares, Goldsmith obtêm ágeis e estimulantes combinações rítmicas a partir da alternância de compassos de cinco, sete e quatro tempos.


Em "Firs Blood" (Faixa 03) encontramos pela primeira vez um tema singelo, mas ao mesmo tempo marcante: o leit motiv da desolação executado por trompetes que ressoam sobre a tensa base das cordas graves e agudas, estáticas e o retumbar marcado e espaço dos tímpanos. Logo o tema principal, lenta e angustiosamente, sobre a marcação rítmica do piano grave, é recapitulado pelas cordas e depois pelo trompete. Após o ressoar da percussão militar uma nova secção rítmica se inicia, progredindo no tempo e entrecortada por rompantes de suspense. Em "The Tunnel" (Faixa 04) a música em ânimo crescente reflete o suspense e o posterior caos.


Destaca-se em especial também "Hanging on" (Faixa 05) pelos processos acumulativos de densidade instrumental em um ritmo entrecortado e incisivo, e por sua clara organização formal em três grandes blocos.


O assombroso tema de ação "Mountain Hunt" (Faixa 06) alude à seqüência na qual Rambo é perseguido pela polícia através do bosque e das montanhas. Aqui escutamos uma esplendida fanfarra com trompetes, background de cordas, e o tema principal de Rambo é apresentado à grande orquestra, para logo voltar ao ostinato dos sintetizadores e cordas de fundo. Trombones e pratos finalizam o suspense desta cena do filme.


Goldsmith compôs uma música final para First Blood, denominado "It's A Long Road" (Faixa 11), mas que por fim não foi usado no filme em sua versão instrumental, sendo convertida numa canção açucarada interpretada por Dan Hill. No entanto a música que originalmente Goldsmith pensou para os créditos finais afortunadamente foi incluída no álbum. Esta, uma recapitulação do tema principal, "Home Coming" (Faixa 01), que recebe um tratamento orquestral mais elaborando, compondo-se de uma base de cordas e trompete solista, que logo são acompanhadas pela secção de madeiras, com percussão de fundo, e para terminar, violinos e trompetes.


RAMBO II – A Missão


(First Blood Part II, 1985, 95 min)


Composed by Jerry Goldsmith


Atrás do êxito de First Blood, a segunda parte não tardou em aparecer. "Rambo II: a missão" (Rambo: First Blood Part II, 1985, 95 min), retoma a história do primeiro filme desta vez dirigida por George Cosmatos com quem trabalhou Jerry Gooldsmith em "The Cassandra Crossing" (1976) e "Leviathan" (1989).


Esta segunda parte, cujo roteiro fora escrito pelo próprio Stallone e o, naquele momento, futuro diretor de Titanic (1997), James Cameron, centra seu argumento no fato de Rambo estar na prisão, cumprindo pena de dez anos de trabalhos forçados, quando o seu ex-comandante, o coronel Trautman, aparece com uma proposta para libertá-lo. Ele deve ir numa missão ao Vietnã em busca de evidências de que ainda existem prisioneiros americanos por lá. Portando apenas a sua famosa faca e um arco e flechas, traído por seus companheiros, Rambo luta contra força opressora do inimigo e jura vingança a aqueles que o fizeram como inimigo. E agora "Nenhum home, nenhuma lei, nenhuma guerra, podem detê-lo".


Assim, para a espetacular seqüência, entregando-se totalmente ao frenesi e à ação sem limites, Jerry Goldsmith compôs uma monumental partitura totalmente nova, impetuosa e complexa, que se estabelecem sobre a reciclagem do tema principal do protagonista e sua célula rítmica característica com variações na orquestração. Para isso contou com a National Philharmonic Orchestra, histórica formação com a qual o compositor gravou muitas de suas trilhas sonoras para o cinema. O resultado é assombroso. Basta escutar qualquer faixa do álbum para imaginar as batalhas que Rambo trava em plena terra vietnamita.


O "Main Title" sugere ao ouvinte o lugar onde se situa a ação: Vietnam. Uma leve introdução de violinos que dão passagem aos sintetizadores e forte percussão com trombones, cordas ao modo escalar "oriental" e madeira diversas, dão uma nova interpretação do tema de Rambo, descrevendo o que será um prelúdio da ação e da aventura.


"The Jump" descreve a cena do desesperado salto de Rambo do helicóptero. Aqui a música, com sintetizadores e um início de cordas de fundo, precede ao caos que logo o herói viverá. Escutamos o leit motiv do personagem que aparece em variações percussivas até se transformas em uma espécie de "caos musical" com trompetes e percussão. Assim nos damos conta que Rambo não pode soltar-se do pára-quedas, até que consegue cortar a corda e a música que atenuada acompanha a queda do personagem.


Logo no início de "Bring Him Up / The Eyes" soam pela primeira vez os oito acordes associados ao Coronel russo Podovsky, outro leitmotiv chave, ao lado do recorrente tema central. Sua translação musical vem numa contundente fanfarra de trompas interpretada em registro grave. Adicionalmente, o exército vietnamita terá também seu motivo musical, mediante um bloco de percussão oriental eletrônica incluído em várias músicas, mas só integralmente apresentado na faixa "River Crash / The Gunboat" associado ao seu primeiro confronto com Rambo.


"Escape From Torture" é uma notável passagem onde a orquestra se sobressai em densidade. Esta seqüência musical contundente se passa enquanto Rambo e o coronel Trautman (Richard Crenna) são torturados com choques elétricos dentro de uma improvisada prisão. Prontamente Rambo se liberta e foge de forma desesperada tentando libertar os prisioneiros de guerra. Sobre a base do leitmotiv do herói e com referências ao tema do Coronel russo, Goldsmith compõe três minutos de autêntica brutalidade sonora, com transições rítmicas sensacionais e de tal dificuldade que somente poderiam ser reproduzidas por uma orquestra do calibre da National Philharmonic. A música com sintetizadores, trombones e violinos, acentua os passos e gestos da fuga de Rambo e Trautman da prisão numa fabulasa sincronia com as imagens, enquanto a percussão acompanhada pelos trompetes, acentua o dramaticidade da cena a medida que ela transcorre. Por fim o tema de Rambo aparece apresentado de forma magistral, com metais, cordas, pratos e percussão enfatizando o êxito da fuga.


Compondo a parte final do álbum vivenciamos as passagens mais brutais tanto do filme quanto de todo score, uma sucessão potentes temas que eletrizarão o ouvinte. Começando com a tensão transbordante de "Revenge", clara variação de "Mountain Hunt", de First Blood, seguindo com as aguerridas "Bowed Down" e "Pilot Over", esta última, outro exemplo claro da invejável habilidade rítmica do californiano, culminando com "Village Raid / Helicopter Flight". Nela, Goldsmith recorre a violentos golpes de percussão na cena do bombardeio ao povoado vietnamita, para logo desembocar em uma esplêndida recapitulação de "Escape from Torture", ouvida durante a vibrante perseguição final com o helicóptero russo.


Os únicos instantes brandos da partitura são encontrados em "Stories" e "Day by Day", este último o epílogo do filme e que introduz motivo melódico da desolação do protagonista executado pelos trompetes. Uma peça magnífica para a burlesca cena do diálogo final entre Rambo e o coronel Trautman.


Como não poderia ser de outra maneira, uma canção, "Peace in Our Life", interpretada pelo irmão de Sylvester, Frank Stallone, e com música do próprio Frank Stallone e Jerry Goldsmith, encerram a trilha sonora de Rambo: First Blood Part II. Mas não vamos perder tempo com essa odiosidade, principalmente porque o score instrumental do mestre Goldsmith é demasiadamente brilhante para ser prejudicado por esta insossa maneira de musicar os títulos de crédito finais.


RAMBO III – O Resgate


(Rambo: First Blood Part III, 1988, 102 min)


Composed by Jerry Goldsmith


Em "Rambo III: o resgate" (Rambo: First Blood Part III, 1988, 102 min), (Álbum Intrada RVF 6006), o veterano da Guerra do Vietnã, ex-presidiario e sobrevivente de uma missão mal-sucedida, Rambo, refugia-se em mosteiro budista, em busca de paz espiritual. Convocado para uma nova e arriscada missão no Afeganistão, Rambo a recusa, cansado de tanto lutar. Mas seu velho amigo, o coronel Trautman, seu mentor, cai nas mãos dos soviéticos, durante a ocupação do Afeganistão. Seu retiro é interrompido para uma aventura onde o herói em cenas nas montanhas, mata um a um os soviéticos para delírio de seu público alvo. Filmada em Israel, a história é escrita novamente por Stallone em colaboração com Sheldon Lettich e dirigida pelo diretor britânico Peter MacDonald.


Depois de contatar a resistência afegã, Rambo entra na zona sitiada pelas tropas inimigas russas em defesa dos guerrilheiros afegãos. Algo totalmente impensado para a situação de hoje, em que o regime talibã é considerado um inimigo absoluto da "América".


Surpreendendo-nos novamente, para fechar a sua trilogia, Jerry Goldsmith criou uma partitura totalmente diversa das suas duas primeiras incursões. Interpreta pela Hungarian State Opera Orchestra, e destacando fundamentalmente temas como "Afghanistan", onde uma suave melodia descreve a sofrida e humilde vida naquele país, podemos dizer que esta trilha sonora tem um caráter mais reflexivo.


Cordas tendo de fundo a percussão, impregnam de dramaticidade a faixa "The Game", que é outra interessantíssima faixa desta trilha sonora. Ela é ouvida na cena em que Rambo participa de um estranho jogo do lugar: um jogo de "pólo", no entanto, perseguindo um animal. As cordas com percussão e a secção de madeiras precedem o tema principal de Rambo, que ouvimos em uma fanfarra característica dos metais.


"Flaming Village" é pura música de ação e suspense, onde os metais e o piano em registro grave e a percussão, reforçam a ação. O sintetizador é acompanhado por uma nova apresentação do leit motiv de Rambo, a puros metais, com trombones, trompetes, trompas e efeitos sonoros. O resultado é um faixa que oferecem a audição de um ritmo musical totalmente renovado.


A última música do álbum, "I'll Stay", descreve variações dos distintos temas principais da trilha, e oferece uma versão do tema principal de Rambo, com predomínio de violinos. Contudo, tanto esta faixa, como muitas outras pertinentes a esta terceira partitura, terem sido utilizados nas seqüências finais do filme. Na maioria das cenas chave, o diretor decidiu substituí-las por musicas sacadas da segunda partitura.


A edição deste álbum foi tirada dos masters originais, os quais nos permitiram apreciar o grande trabalho que Jerry Goldsmith criou pra esta terceira parte da saga.

RAMBO IV

(John Rambo, 2008, 102 min)

Composed by Brian Tyler

Vinte anos depois da última aventura cinematográfica de Rambo, sobre a tutela de Sylvester Stallone, que dirigiu e roteirizou este novo filme, voltamos a encontrar John Rambo recolhido no norte da Tailândia, onde pilota um barco no rio Salween. Na fronteira com a Birmânia (Mianmar), a mais longa guerra civil acontece entre birmaneses e a tribo Karen, um conflito de quase 60 anos. Mas Rambo tem uma vida simples e solitária nas montanhas e selvas e há muito tempo desistiu de lutar, mesmo com médicos, rebeldes e refugiados passando por seu caminho, até que um grupo de missionários de direitos humanos o procura pedindo sua ajuda. O grupo logo é capturado, e um pastor contrata um grupo de mercenários para resgatá-los. Assim, o guerreiro solitário sabe o que deve fazer e concorda em levar os mercenários, rio acima, até a zona de guerra, onde viverá sua derradeira aventura, espero.


Para o senso-comum, Brian Tyler era o natural herdeiro da saga de Rambo, pois já era conhecido por substituir o maestro Goldsmith que teve sua partitura para Timeline (Richard Donner, 2003) rejeitada por seu diretor que, em suas próprias palavras, reconhecia o filme como um desastre. Em uma desesperada tentativa de salvar a obra condenada, Richard Donner decidiu aumentar a ação e o movimento mexendo na montagem e na trilha sonora.


Evidentemente, em vinte anos houve lugar para muitas mudanças no que se refere à trilha sonora original. Em um natural processo de evolução, neste caso involução caracterizado por um contínuo processo de simplificação a que tem se submetido à arte de compor, quase prescindindo do uso de temas associativos (leit motiv). Substituídos cada vez mais por um acúmulo de temas sem nexo, que além de não apoiar a narração, põe sérias travas no desenvolvimento de si mesmas.


Neste sentido, Brian Tyler é capaz de se mover em um e em outro extremo, ainda que em suas últimas partituras haja uma tendência descarada a citada simplificação formal. Nada nega que este compositor seja um bom artesão de faixas de ação, como podemos escutar em "Alien vs Predador – Réquiem" (AVPR, 2007), seu penúltimo trabalho, em que consegue transmitir o sentido do ritmo com habilidade. Por isso surpreende que em Rambo, Tyler não tenha conseguido oferecer-nos um produto a altura das circunstâncias, capaz de manter a atenção na totalidade se sua audição. Deficiências a parte, não cabe dúvida, a inclusão em forma de homenagem do tema composto por Goldsmith para o belicoso herói, foi seu maior acerto. As aparições do leit motiv de Rambo, executado em solo de trompete e violão, se mostram, nas mãos de Tyler, como os melhores momentos de nossa audição. O compositor aproveita este fato para ostentar nas sonoridades associadas ao personagem principal, oferecendo-nos um novo motivo de cunho étnico executado pelas cordas e metais e outro em alternativa ao principal que casam com perfeição com o caráter da música escrita por Goldsmith. Exemplos disso são as passagens "Rambo Theme" ou "Battle Adágio" com a aparição de uma voz feminina que nos recorda um dos melhores trabalhos de Tyler, "Os Filhos de Duna" ("Children of Dune", 2003, 93min).


A margem do que Tyler é capaz conseguir unindo sua música a de Goldsmith, temos que apreciar o esforço do compositor para dotar de certa personalidade as faixas de ação, algo que quase consegue
em pontuais momentos, sendo o melhor destes, a segunda faixa do álbum, "No Rules of Engagement": Na citada música, Tyler se cerca de um feito que o saudoso e admirado maestro Goldsmith conseguia com facilidade assombrosa, manter o espectador assentado sem dar-lhe opção de outra coisa a não ser olhar atento a grande tela.


Entretanto, a característica principal desta partitura, composta por Brian Tyler, é o uso e sua construção sobre a percussão continua e pairando sobre as cenas quase que totalmente desconectada das nuances dramáticas.


Em "The Compound", que corresponde à seqüência do resgate dos missionários, a orquestra está totalmente subjugada aos tambores e demais instrumentos percussivos que marcam um insistente ritmo com incursões de cordas em spizzicato no pior estilo Hollywoodiano por intermináveis sete minutos e 46 segundos. "Searching for Missionaries", igualmente enfadonho e extenso, nos apresenta a utilização da percussão de uma forma distinta, neste caso, com a ajuda das cordas, para criar um ambiente misterioso e tenso.


O resultado desta série de propostas tão triviais não é nada menos que a criação de uma partitura descomedidamente tumultuada, a anos-luz das excelências mostradas por Goldsmith quase duas décadas antes, não demonstrando, em sua maior parte, maiores virtudes que a simplória função de acompanhar as imagens. A partitura se mostra vulgar, previsível e monótona apesar de ser pretendidamente explosiva, Tyler se perde completamente em texturas que soam as mesmas sempre, provocando a indiferença absoluta à medida que a partitura não dá sinais de maior originalidade conceitual. Em definitivo, ouvir este trabalho só nos faz valorizar ainda mais o score escrito pelo maestro Jerry Goldsmith. Estes scores constituem um fiel expoente da genial música de ação que o maestro nos deixou.

AS CRÔNICAS DE NARNIA: O LEÃO, A FEITICEIRA E O GUARDA-ROUPA  



(The Chronicles Of Narnia: The Lion, The Witch And The Wardrobe)


Composed and Conducted by Harry Gregson-Williams


Performed by Bruce Fowler, Los Angeles Recording Orchestra, Peter Rotter, Sandy De Crescent
with Lisbeth Scott


2005 - 17 faixas/Duração: 70:10/Cotação: ****




Harry Gregson-Williams habitualmente alterna seus trabalhos entre potentes e exóticas partituras percussivas (Jogos de espiões, Assassinos de aluguel) e divertidas paródias em partituras de animação (Shrek, A fuga das galinhas) mantendo sempre um patente ritmo em sua instrumentação, o que me parece ser uma tendência atual entre os iniciantes.


Sua tendência ao trato com sonoridades eletrônicas, seu afã pela experimentação, pela fusão de música contemporânea com sons étnicos (inspirada, talvez, por sua estadia na África ensinando música às crianças) e, sobretudo, um polêmico e excessivo comprometimento com os clichês de seu mentor e amigo Hans Zimmer, não lhe tem conferido mais que infâmia e críticas, em muitos casos injustificadas, que o rotulam com uma personalidade fraca, até então, incapaz de conquistar o respeito dos aficionados por trilhas sonoras.


A verdade é que ele transcende seu mestre, sendo mais sensível, minucioso e perspicaz em suas leitura emocionais e dramáticas —, observando atentamente suas nuances em cena, fugindo à música meramente ambiental, dissociada da cena. Mas também é verdade que falta-lhe uma certa austeridade, uma certa fidelidade de estilo que nos faça confiar que o minuto, a faixa seguinte será tão boa quanto a anterior. Uma sobriedade que talvez a experiência lhe dará. Todavia, seu talento e o espírito de superação foram capazes de convertê-lo, junto a seu colaborador habitual, John Powell, em um ícone da música de animação com obras como "Antz", "Chiken Run", "Silbad" ou a saga "Shrek" de Andrew Adamson, diretor também de Narnia.


Assim, em Narnia ele dá continuidade a tradição britânica através do classicismo das cordas e da orquestração repousada em elegias como em "The Magic of Marciano" ou "Bridget Jones 2", adentrado em seguida ao âmbito das superproduções com "Cruzada" de Ridley Scott, onde frustrara os que dele esperavam uma demonstração de independência intelectual e competência individual. Agora o encontramos em "As Crônicas De Narnia: O Leão, A Feiteceira E O Guarda-Roupa" que diziam ser, desde o seu anúncio, sua grande oportunidade de mudar toda má impressão que deixara e dizer a que veio.


Baseada na aclamada a obra de C.S Lewis, esta estória narra as aventuras de quatro irmãos: Lucy, Edmund, Susan e Peter, que durante a Segunda Guerra Mundial descobrem, oculto em um Guarda-Roupa, através dele, o mundo de Narnia, no qual se embrenham.


Apesar de não ter lido nenhum dos sete livros da série As Crônicas de Nárnia, e, portanto, não poder dizer se os diversos problemas que atravessam esta adaptação para o cinema vieram do material original —, posso falar de seu roteiro enfadonho e de sua direção equivocada. Assim, descrever este filme como um 'O Senhor dos Anéis para crianças (impulso inicial de qualquer pessoa) acabaria sendo uma ofensa tanto para a trilogia dirigida por Peter Jackson quanto para os pueris espectadores, que, apenas por serem jovens, não merecem produções, que apesar de visualmente deslumbrantes, são mal-acabadas como esta.


Quando a história tem início, Londres está sofrendo um ataque aéreo por forças nazistas, fazendo com que a Sra. Pevensie tome a decisão de enviar seus quatro filhos para o interior do país, onde estarão mais seguros. Assim a história os leva a mansão do recluso professor Kirke, onde, enquanto fogem da mal-humorada governanta, entrarão em um guarda-roupa que os levará a Narnia: um mundo fantástico, visualmente impressionante, habitado por seres mitológicos e animais falantes, condenados a um terrível inverno há cem anos pelo domínio da cruel Feiticeira Branca "Jadis", com a qual lutarão para trazer novamente a paz a Narnia em uma "dramática e espetacular batalha". Assim, conhecendo o sábio leão Aslam, que passa a protegê-los e a orientá-los, logo descobrem que há uma profecia que garante que o reinado da vilã chegará ao fim graças a "dois filhos de Adão e duas filhas de Eva". Vividos de forma unidimensional pelos seus jovens atores, os personagens são claramente criados para exercerem funções específicas ao longo da trama e se movem em meio a seres estereotipados em interações que soam artificiais, como meras convenções narrativas.


Esta previsibilidade do roteiro, no entanto, não é o principal equívoco de As Crônicas de Nárnia: O Leão, A Feiticeira e o Guarda-Roupa, cuja maior fraqueza reside na falta de tensão ao longo da projeção. Desde o início, quando vemos a esquadrilha nazista sobrevoando Londres, o filme assume um clima de inocuidade que mantém o espectador seguro de que nada de mau acontecerá – e o fato de ser voltado para o público infantil não justifica esta atmosfera inofensiva. Mesmo as cenas de batalha falham em nos levar a temer pela segurança dos heróis, que parecem apenas estar brincando de guerreiros, cientes de que ninguém os machucará seriamente. Bem mais longo do que o ideal com seus 140 minutos de duração, esta primeira parte de As Crônicas Nárnia é cansativa e nada envolvente.


Pois este é o ambiente de trabalho de Gregson-Williams que imbuído de todo logro que este filme demonstra ser, talvez não percebendo-o, acaba por pecar pelo excesso desde o início; quando as crianças fogem da governanta ao som de uma música desproporcionalmente tensa e grandiosa, mais um exemplo da música superando a obra para qual foi feita.


Para este filme Gregson-Williams compôs a partitura mais ambiciosa, completa, e em todos os sentidos, bem sucedida de toda sua carreira. Um trabalho de exuberante riqueza temática, preciosismo melódico, orquestração original e variada, e, sobretudo, de contrastes, passando de um terno intimismo a contundentes e espetaculares paisagens de ação com a preciosa onipresença de coros. Também encontramos seus pontos fracos: Há a importuna introdução de sonoridades eletrônicas e enfadonhas vocalizações new age que, num filme épico de fantasia, o bom-senso mandaria evitar.


Introduzirmo-nos no universo musical idealizado por Gregson-Williams é uma experiência difícil... A consistência de suas músicas em integração com as imagens é tão importante, que poderíamos dizer que o score é o encantado Wardrobe deste filme. Se Gregson-Williams não o tivesse aberto, o resultado final certamente teria sido ainda mais questionável, pois que ele faz de sua música o melhor do filme.


Tematicamente, as crianças são a chave da partitura. Para descrever suas fragilidades, a dramaticidade por terem sido abandonados por sua mãe, e incluindo as dúvidas entre os próprios irmãos, Gregson-Williams utiliza uma bonita, mas triste melodia, que contrasta com o tema dos Reis. Fato que será primordial nas seqüências de ação que na prática refletirão seus futuros, seu heroísmo e determinação.


Todavia, o próprio mundo mágico de Narnia também possui seu próprio tema, assim como, Aslan e sua antagonista, a Bruxa Branca, que paira em espírito sob as cenas ameaçadoras. Em segundo plano, existem ainda os temas da viajem, associado a um fragmento de sonoridade contemporânea com percussões eletrônicas e vocalização new age manifestado no decorrer de jornadas; e de Mr. Tummus, preciosa e comovente melodia executada primordialmente pelo violino elétrico.


O suporte narrativo do qual se incumbem todos os temas, e não a mera descrição —, é uma das características mais admiráveis e bem sucedidas deste score de Gregson-Williams... Outro dos múltiplos motivos pelos quais devemos considerar "As Crónicas de Narnia" sua melhor composição até o momento.


"The Blitz, 1940" (Faixa 01 - 02:32): Os primeiros compassos deste álbum se apresentam como uma intensa e dramática Abertura para percussão e metais sobre o adorno dos efeitos sonoros da aproximação e ataque de bombardeiros alemães que ameaçam a população de Londres durante um de seus múltiplos ataques durante a II Guerra Mundial. Através de seu tema principal, doado aos metais logo em seu início, lembramos Jerry Goldsmith e sua música para os filmes de James Bond. Nesta música nos é apresenta o tema antagonista utilizado indistintamente durante o filme sempre que os protagonistas sofrerem alguma ameaça (como posteriormente ocorrerá durante as aparições de Feiticeira Branca e seus aliados). Por fim, a evolução temática nos levará ao tema das crianças, apresentado aqui em sua vertente mais dramática.


"Evacuating London" (Faixa 02 - 3:38): Encontramos esta música com a evacuação de Londres e a fuga dos irmãos, a separação de sua mãe e em seguida a viajem de trem das crianças em busca de um novo lar. Toda seqüência tem início com a apresentação do tema das crianças em seu invólucro melancólico nas notas mais que apropriadas de um piano, mas que ainda assim contem a esperança de que tudo voltará a ser como antes. Com o inicio do main title inicia-se uma dinâmica e contemporânea passagem lírica na voz de Lisbeth Scott e conciliada com sintetizadores, ritmos eletrônicos, que apesar de afetivos, são uma intromissão estranha ao ambiente de onde surgem, em segundo plano, os temas de Narnia e das crianças.


"The Wardrobe" (Faixa 03 - 02:54): Aqui encontramos a cena em que a pequena Lucy descobre o guarda-roupa e, através dele, o mundo de Narnia. É um dos momentos mais mágicos do filme e certamente do score. Flauta, harpa e sobretudo o piano que interpreta o tema de Aslan, acompanham Lucy em seu caminho rumo ao desconhecido. O surgimento do coro, o crescendo das cordas e a inserção de sinetas, terminam por nos situar em um novo mundo, pleno de magia; logo interrompida pela aparição de Mr. Tummus (o fauno).


"Lucy Meets Mr. Tumnus" (Faixa 04 - 04:10): A busca de sons próprios para Narnia levou Gregson-Williams a contar com seu amigo
Hugh Marsh, virtuoso interprete do violino elétrico, para prover as explicações de Mr. Tummus a Lucy de um ar quase místico e surreal. É uma preciosa passagem onde o tema de narnia é retomado em sua parte final por meio do clarinete e em seguida pelas cordas e coro (elementos indissoluvelmente unidos durante todo o score).


"A Narnia Lullaby" (Faixa 05 - 01:12): Sem dúvida uma dos pontos altos deste score. Mr. Tummus deseja adormecer Lucy para entregá-la a Feiticeira branca, e para isso faz uso de um instrumento mágico, que Gregson-Williams associa ao som do duduk. A melodia de claras sonoridades orientais vai crescendo através da inserção do coro e do maior protagonista da orquestra, a percussão, até alcançar seu auge sinfônico por meio dos metais —, talvez uma metáfora da evolução dramática e épica do filme.


"The White Witch" (Faixa 06 - 05:30): É tempo de nos dedicarmos ao ambiente musical desenvolvido para a Feiticeira Branca. Logicamente a atmosfera obscurece, a percussão se mostra mais agressiva, o coro adota um ar diabólico onde os piores temores se expressão. Uma dinâmica só interrompida por um interlúdio para flauta em um ambiente etéreo que antecede um final vibrante e sombrio.


"From Western Woods to Beaversdam" (Faixa 07 - 03:34): Para suavizar um pouco a rigidez e agressividade da faixa anterior, se recorre ao tema da viajem de "Evacuating London". A estética new age domina esta primeira parte através das percussões e da cálida voz de Lisbeth Scott. A segunda parte em contrapartida, em exuberante contrastes com a passagem anterior, se concentra mais no desenvolvimento do tema Aslan através da candura das flautas, da nostalgia das cordas e da nobreza dos metais.


"Father Christmas" (Faixa 08 - 03:20): Uma das passagens mais surreis do filme se dá com a aparição do Papai Noel em uma seqüência na qual os protagonistas acreditam estar sendo perseguidos pela Feiticeira Branca. Gregson-Willians compôs uma preciosa peça tipicamente natalina com coros, sinetas e cordas que precedem a entrega de presentes aos meninos, presentes dignos de calafrios — armas! —, refletidos na música por meio do tema de Narnia e de Aslan interpretado com grande solenidade e nobreza pelo coro e grande orquestra.


"To Aslan's Camp" (Faixa 09 - 03:12): Aqui encontramos a primeira aparição do tema dos Reis por meio de uma emocionante fanfarra. Em resumo, na seqüência do rio congelado onde Peter utiliza a espada para salvar a todos. Esta faixa trás um início espetacular e um breve interlúdio de moderada música em que encontramos novamente o tema de Narnia seguido de um momento quase místico com a aparição de Aslan. A faixa se finaliza com uma nova referência ao tema dos Reis, neste caso em uma variação mais nobre e menos dinâmica que o começo da peça.


"Knighting Peter" (Faixa 10 - 03:48): Trás um início lento com predomínio do tema de Aslan passando a uma breve, mas intensa, passagem de ação que coincide com a cena do enfrentamento entre Peter e os Lobos. Seu triunfo, descrito musicalmente com moderação leva a uma nova apresentação do tema das crianças, por meio da flauta, no momento em que Peter é nomeado cavaleiro por sua destreza e valia com a espada. Ele será quem deve guiar Narnia ao glorioso futuro que o espera.


"The Stone Table" (Faixa 11 - 08:06): Transcendente passagem do filme cujas conotações religiosas perpassam todo o ambiente. Vemos então a figura da Aslan, sacrificando-se pelos seus, permitindo ser executado em público. A cerimônia pagã dirigida pela Feiticeira Branca e acolhida quase que lascivamente por seus súditos é um dos momentos chave deste score onde se elabora uma peça dominada pelas percussões, as vozes étnicas (tibetanas), com a orquestra a todo o instante incrementando a tensão ao compasso de um ritmo que vai in crescendo. Este tempo será a chave do momento da execução, com a voz de Lisbeth Soctt evocando o drama que esta por vir. Uma aceleração da música que leva a tensão a limites imprevisíveis e de repente tudo cessa. O tempo pára e o tema de Aslan se transforma em uma dolorosa elegia para cordas. É o lamento pela morte do líder transmitido ao acampamento pelass árvores através de suas folhas, e a música através da percussão acompanhada por uma versão grave e obscura do tema dos Reis.


"The Battle" (Faixa 12 - 07:08): Uma das razões para este score ser lembrado é sem duvida por esta peça para orquestra e coro. Uma das maiores junções música-imagem conseguidas pelo compositor britânico ao longo de sua carreira. Uma longa faixa de ação de sete minutos, de ímpeto contido e solene, apresentando o tema dos Reis em clara metáfora da preocupação que invade os protagonistas antes da parte final e definitiva da batalha em campo aberto ante o exército da Feiticeira Branca. Contudo, este ímpeto não será mais que um prelúdio de uma sucessão de crescendos de um fabuloso tema perfeitamente compassado que alcança seu clímax justo quando coro e orquestra se fundem para elevar o misticismo e a magia da batalha, a bravura dos combatentes, o sacrifício do indivíduo pelo grupo. Convém destacar um elemento, a princípio questionável: o uso de uma base rítmica eletrônica que vai intocada por vários compassos por sob a orquestra e o coro com certo ar das antigas composições da extinta Media Ventures.


"Only the Beginning of the Adventure" (Faixa 13 - 05:32): Não é o "Throne Room and finale" de Star Wars, mas é uma passagem musical muito agradável utilizado na cena final no Castelo. É uma faixa que na realidade é uma suíte não declarada que tem início com o tema das crianças, em seguida de Aslan e o de Narnia, e o evidente e necessário tema dos Reis, já que é o momento da coroação dos quatro irmãos. A vaga referência ao tema de Mr. Tummus, no reencontro deste com Lucy, não será mais que um pretexto para que o tema dos Reis de Narnia que se desenvolvem brevemente antes de sue desenlace final.


Como "ônus", encontramos nas quatro faixas finais uma avalanche de canções originais, sendo a última, "Where", apresentando um trecho do tema das crianças e sendo interpretada por Lisbeth Scott, que nos últimos anos também serviu a John Williams em "Munich", John Debney em "A Paixão de Cristo".


Por fim deve-se dizer que o trabalho de Gregson-Williams em "As Crônicas de Narnia" não se limitou só a escrever o score, mas a criar toda uma realidade ambiental, através de texturas ousadas e ritmos patentes, que o filme por si seria ineficiente em criar. O vigor que reclamam faltar-lhe nesta partitura, não o encontro em falta, sendo que a preponderância ainda maior de seus elementos musicais poderia soar excessivo, até mesmo megalomaníaco, e em alguns momentos o é, pois que o filme "derrapa" e não lhe honra. Talvez ainda fiquemos esperando por uma manifestação mais clara da austeridade de sua música, mas também ele ficará esperando pela oportunidade de se embrenhar num filme de qualidade que realmente o desafie. No entanto podemos dizer que neste score ele deu mostras efetivas de seu talento.

SUPERMAN – O RETORNO  



(SUPERMAN RETURNS)


Composed, Co-Arranged, and Produced by John Ottman


Original Themes by John Williams


Conducted, Co-Arranged, and Co-Orchestrated by Damon Intrabartolo


Performed by The Hollywood Studio Symphony

2006 - 17 faixas/Duração: 55:27
Cotação: ***


Comecemos então enumerando fatos... Fato é que o grande tema de John Williams para Superman – The Movie de 1978, o mais épico e majestoso dos já compostos para filmes de super-heróis, permanece como um dos mais famosos de todos os tempos, reconhecível até mesmo para os mais distraídos ouvidos. Outro fato é que John Ottman, acostumado a lidar com super-heróis (X2 e Quarteto Fantástico), propondo temas que tentam refletir a natureza essencialmente nobre de seus personagens em temas pouco inspirados e coros atmosféricos (moda atual em Hollywood) não conseguiu convencer-nos plenamente de que poderia fazer uma leitura convincente deste universo tão sensivelmente peculiar. Assim, óbvio é o fato de seu trabalho em Superman Returns se desdobrar à sombra projetada por John Williams. Mas é obvio também o fato de não poder ser esta situação diferente, pois seja qual fosse o compositor, mesmo Williams, trabalharia sobre expectativas baseadas na partitura original. Sabendo de tudo isso e talvez conhecendo seus limites, não só o compositor John Ottman, mas também o diretor Bryan Singer se compararam quase que voluntariamente ao filme "original"; fizeram uso de seus temas musicais e até mesmo de alguns diálogos. Logo na abertura do filme ouvimos uma versão do tema de Kripton que serve de prelúdio ao grande tema "Main Titles" de John Williams que acompanha a destruição do Planeta Kripton e a expansão através da galáxia de seus destroços até encontramos a terra e o continente americano. Há ainda uma espécie de tributo a trilha original em "Behind the Scenes: Superman Returns Score", vídeo bônus no CD que consiste basicamente em uma entrevista de com Bryan Singer na qual ele discute a relação dele com John Ottman e a razão pela qual os temas originais de John Williams foram integrados a trilha, finalizando com o "Main Titles" executado pela orquestra de 1978.


Supostamente retomando a história de Kal-El (nome real do herói) a partir do final de Superman II, este novo filme revela que, depois que cientistas descobriram vestígios de seu planeta natal, Superman partiu em uma longa viagem a fim de visitar os restos de Krypton, com a esperança de encontrar algum elo com seu passado. Cinco anos depois, ele volta à Terra e descobre que, durante sua ausência, Lois Lane teve um filho e tornou-se noiva do sobrinho de Perry White, editor do Planeta Diário. Enquanto isso, seu antigo inimigo, Lex Luthor, aproveitando a oportunidade, visita a abandonada Fortaleza da Solidão e rouba os cristais que continham os ensinamentos de Jor-El, pai do protagonista, e planeja utilizá-los para criar uma verdadeira cópia de Krypton em nosso planeta, destruindo, no processo, todo o continente americano.


Assim o jovem diretor de realizações artísticas admiráveis, como O Aprendiz e Os Suspeitos, após o duplo sucesso de X-Men e X-Men 2, assumiu a realização de um projeto essencialmente grandioso que lhe exigiria disciplina e acima de tudo comedimento: o tão esperado retorno de Superman às telas de Cinema. Pois se as ambições artísticas do cineasta contribuíram para conferir peso dramático ao universo dos mutantes, desta vez o resultado é bem menos satisfatório. Em sua ambição por conferir amplitude dramática à história, conciliando-a cm a clássica historieta de aventura do herói contra vilão, fez por embaraçar a narrativa com tantos meandros que nenhuma de suas faces pôde ser desenvolvida devidamente.


Só com piedade podemos aceitar plausíveis o estapafúrdio e megalomaníaco plano de Lex Luthor de especulação imobiliária; ou a escolha do elenco, já que obviamente Brandon Routh e Kate Bosworth são jovens demais para os papéis – particularmente a moça que aos 23 anos tenta nos convencer, sem a energia inquiridora e a personalidade forte tão característica de Lois Lane, de que é mãe de um garoto de 5 anos e vencedora do Pulitzer – principalmente se considerarmos que ela supostamente já era uma repórter consagrada antes dos 18 anos, quando ocorreram os eventos dos capítulos anteriores. Além disso, a frieza com que sua personagem trata Clark é pouco interessante, eliminando uma das dinâmicas mais importantes do primeiro filme. Kevin Spacey, por sua vez, encarna Luthor de modo excepcional, eliminando qualquer resquício do bufo Gene Hackman, assumindo uma postura mais sarcástica e cruel. Por fim, Brandon Routh, por mais que apresente o tipo físico perfeito para o papel, parece sentir o peso do personagem e falha miseravelmente no aspecto mais importante de sua composição, jamais conseguindo diferenciar Clark Kent do Homem de Aço, talvez por falta de oportunidades mais claras para isso. Pois que o brilhantismo do trabalho de Christopher Reeve residia justamente em sua capacidade de levar o espectador a acreditar que Clark e Kal-El eram indivíduos diferentes; aliás, ao surgir como Superman, torna-se evidente que as feições de Routh receberam algum tipo de tratamento digital para diferenciá-lo ainda mais de Clark Kent, uma grande bobagem, uma ajuda que Reeve dispensava graças ao seu carisma, talento e timing cômico.


Também falha a música em sua característica básica no cinema: evocar emoções. Essa deficiência contamina-a, tornado-a por vezes afetada e excessiva como no momento em que Lois Lane e seu filho vagam pelo hiate de Lex Luthor e se deparam com sua coleção de perucas e ouvimos o soar dos metais tentando conferir a esses objetos um ar ameaçador que verdadeiramente não possuem, como ao final de uma seqüência de suspense mal sucedida. A música só faz tornar este instante um momento cômico quando desemboca num encontro com Lex escovando os dentes... Pude ouvir os risos. Na cena em que o Superman é espancado, a música falha por omissão renunciando a descrição emotiva da cena, figurando como ambientação desconectada do ritmo. Ela reflete a melancolia da humilhação sofrida por ele, mas não se altera mediante as passagens mais tensas. Uma das cenas mais musicalmente interessantes, impressa irremediavelmente em minha memória, não pertence a Ottman, foi a do menino tocando ao piano, em seu cativeiro no hiate, a infantil melodia protagonista do filme "Quero Ser Grande" com Tom Hanks; pois que por contraste imprimia a cena uma tensão que de outra forma não teria. E o que dizer desta seqüência?, quando o próprio vilão senta-se ao seu lado tocando em dueto.


Diferentemente de Patrick Doyle que em Harry Potter and the Goblet of Fire, substituindo John Williams, recriou, fazendo renascer o já consagrado tema em um elegante exercício de composição incidental e temática, Ottman não fez nada além do esperado, re-arranjando quase frivolamente os antigos temas e compondo somente material adicional indispensável às novas necessidades. Corroborando mais uma vez com a idéia corrente de que dificilmente uma trilha atual poderia vislumbrar a solidez daquela partitura original; não conseguindo a orquestração apurada e muito menos a sobriedade perspicaz do mestre Williams. Desde suas primeiras notas, percebemos fortemente carências de personalidade e originalidade em soluções técnicas pouco elegantes e conceitos melódicos e temáticos pouco interessantes, em nenhum momento me parecendo potencialmente brilhantes para serem recordados, salvo um comovente tema nas seis suaves notas que serve de alternativa ao consagrado tema do amor de Williams e que, apesar de carecer de inspiração melódica, nos promove as melhores passagens do álbum em desenvolvimentos intimistas inspirados. Mas que mesmo assim, poderia ter sido mais bem aproveitado no filme se firmado como o tema do garoto, filho de Lois Lane.


Passemos a descrição e análise faixa a faixa:


"Main Titles" (Faixa 01 - 03:49): O Álbum se inicia, sem o prelúdio habitual, com a hábil música do maestro Williams, apostando talvez numa conexão mais intima com o passado e com seu majestoso espírito. Mas também incentivando a percepção dos contrastes entre os compositores.


"Memories" (Faixa 02 - 03:07): Acompanha os pensamentos de Clack que vislumbra sua fazenda em Smallville e se lembra de quando corria por ela. Trás uma breve introdução do Kent Family Theme original de Williams e logo ouvimos um trecho que lembra muito "América" de Leonard Bernstein que se funde com o motivo anterior. Não me parecendo muito bem estruturada e inspirada, o restante da faixa é composta de detalhes rítmicos e timbres próprios do compositor fundidos a motivos e base rítmica dos temas de Williams, falsificando por instantes o "Growing up" da trilha original. Ouvimos então uma capitulação lenta e delicada do tema da fanfarra que se desfaz numa passagem mais ambiental executada pelas madeiras e o misterioso coro misto; jogando com a idéia da trilha original, quando Clarck acha o cristal no celeiro e inicia sua viagem ao ártico.


"Rough Flight" (Faixa 03 - 05:13): Acompanhando o resgate de um avião; é uma faixa fundamentalmente rítmica de início caótico, sem claridade e com pretensão de agressividade, mas carecendo de consistência. Uma das primeiras coisas que ouvimos é uma linha descendente e rápida de metais e muita dissonância orquestral cessando subitamente. As variações rítmicas e orquestrais do "Main Titles" que se seguem são pouco ousadas, mas corretas e interessantes em meio a seções harmônico-melódicas conferidas a cordas, coro e metais. Um tema muito dramático e heróico é ouvido quando passamos pela marca de quarto minuto. A faixa termina com uma seção incidental percussiva para coro e orquestra que cessa bruscamente.


"Little Secrets/Power of the Sun" (Faixa 04 - 02:49): Com um belo início onde faz uso de uma variação do tema "Main Titles", logo introduz-se, variando através das madeiras o tema do amor original de Williams, parecendo-me um tanto carente de expressão interpretativa. Ottman em seguida esboça o que será seu próprio leit-motif romântico na metade da faixa; algo escasso de inspiração melódica e arranjo orquestral, mas mesmo assim funcional e explicito. O trompete pontua com o tema "Main Titles" a chegada do coro em uma bela passagem melancólica, mas esperançosa que se finaliza em uma coda dramática.


"Bank Job" (Faixa 05 - 02:21): É basicamente uma faixa rítmica incidental, uma vez mais com pretensões grandiosas, mas sem chegar a "golpear" o ouvinte com suas construções rítmicas infantis, maçante e com abuso dos efeitos orquestrais. Um rol de tímpanos abre a faixa culminando no frescor dos pratos. Trompetes emudecidos e madeiras recordam a música de Mystique de X2. Entre o caos percussivo, o tema de Lex luthor permanece meio escondido, mas é ouvido ocasionalmente nos metais. Na seção final se recorre mais uma vez às notas iniciais do "Main Title" sem nenhum brilhantismo (continuidade ou falta de idéias?), ouvida brevemente nos metais, logo em seguida o coro masculino acompanha o tema sobre o correr das cordas. A Faixa termina com uma progressão curta e dissonante.


"How Could you Live Us?" (Faixa 06 - 05:49): Se desenrola durante a seqüência do reencontro e vôo do herói e Lois Lane em que conversão sobre sua ausência. Ottman apresenta inicialmente um terno esboço de seu próprio leit-motif do amor passando logo então a uma magnífica recapitulação do tema de "Kripton" de Williams com um solo de corne inglês, que dá lugar a uma seção ambiental, intimista, insinuante e bem construída, apoiada em sintetizadores, violino solo e em texturas de cordas. Este conceito culmina na exposição e desenvolvimento do leit-motif do amor de Ottman (Faixa 04) com o piano, cordas e coro. No final da faixa de novo reaparece o tema de Williams delicadamente apresentado nas cordas. Sem dúvida é uma das melhores e mais inspiradas faixas do álbum.


"Tell Me Everything" (Faixa 07 - 03:13): Acompanha a visita de Lex Luthor a Fortaleza da Solidão. Uma faixa interessante, especialmente em sua seção central e final, bem construída em textura e orquestração, que de algum modo segue a linha intimista e ambiental da faixa anterior, só que mais obscura e inquietante. De inicio os metais entoam o tema de Luthor antes que o coro inicie uma bela, vibrante e misteriosa passagem junto aos metais e cordas, cortejando o tema de Luthor. O tema de "Kripton" é pontuado rápida e fortemente antes de tudo se acalmar. O que segue tem um sentido semelhante à "The Fortress of Solitude" original de Williams. O coro se faz presente, lírico, baseado no material de Krypton, só que mais dramático que na trilha original, antes de se acalmar. O minuto final é composto de alternados momentos, entre serenos e suspensivos, conferidos às cordas e aos metais, enquanto fragmentos melódicos nas cordas sugerem o tema de Luthor.


"You´re Not One of them" (Faixa 08 - 02:22): Nova faixa intimista, algo mais simples e menos inspirado em construção que os anteriores, mas correto e funcional. A faixa tem início com um brilho morno e desamparado, enquanto se deixa acariciar por toques eletrônicos. O clarinete surge um momento por entre o calor dos sons; o violoncelo entra em seguida. Nós ouvimos uma linha de piano agradável enquanto os violinos reiterarem o tema principal, o leit-motif do amor de Ottman. Este tema é levado pelo cello e então pelo coro em um momento graciosamente contido: o ponto alto da faixa.


"Not Like the Train Set" (Faixa 09 - 05:12): Aqui voltamos de início aos sons rítmicos e com pretensões agressivas de Ottman, encontrando-nos em meio a uma música demasiada mecânica. Os trompetes emudecidos estão de volta, pulsando enquanto as flautas introduzem ameaçadoramente uma variação do tema de Luthor. O coro "ah-ah" por sobre o tema nos recorda o Quarteto Fantástico. A reprise das flautas ocorre sobre uma linha ascendente de trompetes emudecidos. É um tema que realmente representa o caráter inteligente e ao mesmo tempo ligeiramente maníaco do vilão, mas necessitaria de um maior desenvolvimento. Um motivo vocal fresco vaza brevemente e nos movemos então ao tema principal com uma passagem ascendente conduzida pelo flautim e trompete. Ameaçadores, os baixos e trombones retomam o tema de Luthor. Mas tudo cessa novamente, cortado por uma curta e resplandecente passagem com trompete e coro feminino. Logo então os baixos e trombones retomam o tem de Luthor. O restante da faixa contem seções harmônicas convencionais que se resolvem corretamente numa nova exposição da marcha de "Superman" numa execução interessante.


"So Long Superman" (Faixa 10 - 05:31): Iniciando-se com uma passagem minimalista dando origem ao leit-motif de Ottman executado pelo coro e metais. Logo ouvimos um obscuro lamento cantado por um coro masculino antes dos metais insurgirem sobre a cena de modo secundário com o tema de Luthor e alguns sons dissonantes. O violino suspenso nos evoca expectativa... Então, trágicas, as cordas ecoam antes de se calarem. Em seguida ouvimos a percussão lânguida ao fundo sob as madeiras e logo, estas, em dissonância. Então ouvimos o soar de sinos e um fragmento do tema de Luthor para trombones. As cordas ganham volume e nós ouvimos harmonias mais longas que se transformam no leit-motif de Ottman, se desenvolvendo em uma contida elegia para o Homem de Aço. Um golpe metálico seguido de outros nos tira deste transe. A elegia após alguns segundos de silêncio, vem a nosso encontro. Ouvimos então, através de sucessivos tempos, o ressoar de tambores... As vozes e violinos retornam e nós ouvimos as trompas executando o tema da Fanfarra e injetando um pouco de esperança na música. Destaca-se especialmente nesta faixa a re-exposição lírica do leit-motif de Ottman, ainda que com um arranjo de cordas repetitivo e simples, não careceu de emotividade.


"The People You Care for" (Faixa 11 - 03:27): Nova insinuação de ameaça. Um rol de tímpanos queda-se sobre a base contida de um coro masculino que dá origem a um ostinato de cordas sobre o qual os metais sugerem a apresentação do tema de Luthor. Nós somos levados então para um ostinato de violinos rompido pelo insurgir dos metais, com o coro, um grito estranho se segue, prelúdio para a articulação do tema de Luthor. Logo um delicado ostinato de glockenspiels toma o ambiente e após o surgimento do coro ouvimos as cordas introduzindo de modo previsível um trecho do leit-motif de Ottman e os metais surgem dando origem uma seção rítmica conduzida inicialmente pelo piano e metais que aludem ao tema de Luthor. Os violinos vibram psicóticos e o correr da harpa nos leva aos metais que heroicamente finalizam a faixa. A seção final, bastante rítmica, carece uma vez mais de claridade, pegada e dinamismo.


"I Wanted You to Now" (Faixa 12 - 02:56): Esta faixa abre-se com uma melodia delicada no glockenspiel; uma harpa surge calmamente do fundo, então o clarinete declara uma melodia com um piano ao fundo... Vislumbramos as cordas. Há então um desenvolvimento melódico interessante nos compassos finais... Primeiramente o trompete profere uma curta aparição do leit-motif de Ottman antes da reprise pelo clarinete e logo então, da orquestra inteira ganhando em impulso e volume. Uma grande e vigorosa execução deste tema pelas cordas é ouvida com o acompanhamento ao fundo dos metais. Os cellos finalizam a faixa com uma variação do Kent Family Theme original.


"Saving the World" (Faixa 13 - 03:12): A faixa se inicia com um arranjo percussivo adaptado de "Bank Job" (Faixa 05). Golpes orquestrais e seções corais sem muito critério de condução nos levam até uma ameaçadora seção rítmica que desemboca corretamente no ostinato do "Main Titles" e ouvimos, nos metais, o tema de Luthor que cede lugar ao tema "Main Titles" de Williams, ilustrando a visão do minúsculo homem que ergue a ilha. De repente tudo cessa em dissonâncias e estrondos dos tímpanos e ouvimos o coro como uma turba repetidamente. O coro surge vibrante e tudo termina com uma ascensão não resolvida... É o silêncio da "morte" de Superman.


"In the Hands of the Mortals" (Faixa 14 - 02:11): Talvez com a intenção inicial de ser uma marcha fúnebre com melodia coral e acompanhamento de corda, não se destacam nem o arranjo nem a melodia em si, muito limitados em técnica, ritmo e dinâmica. Uma nota insistente acompanha o coro infantil, talvez num anseio, mas incapaz de desenvolver o ostinato "Main Titles" que reviveria o herói, figurando talvez como uma variação deste. O ostinato simples pára e nós movemos ao motivo alternativo do amor no som do glockenspiel suavizado durante alguns segundos o ambiente. Assim chegamos ao fim da faixa.


"Reprise / Fly Away" (Faixa 14 - 04:15): Serve apenas de recapitulação amalgamada de outras faixas, sem nenhuma novidade. Assim os créditos finais expõem os leit-motifs "românticos" de John Ottman e John Williams, bem como também, ao final, a "Superman March". Tudo com um escasso trabalho instrumental ou de novos arranjos. Lástima, porque esta pista poderia ser a redenção, mas se resolve de forma rápida, cômoda e preguiçosa. E isso é como termina.


***


Confesso! Ouvir a música de John Williams nos créditos iniciais me emocionou inesperadamente, me lançando de volta à infância, a quando esperava o ano todo para ver a reprise do primeiro filme na TV e, sentado sozinho no sofá, assistia extasiado àquelas imagens. Esta foi a primeira música orquestral que me chamara a atenção na vida; com 6 anos eu a havia decorado e cantarolava-a na integra—, lembro-me bem. Por isso, não me furtei à oportunidade de comentar a trilha deste novo filme cuja comparação com o original, como já disse, é inevitável, e até mesmo provocada por seus organizadores. Se Batman Begins de Hans Zimmer & James Newton Howard nos deixou apenas a possibilidade de julgar se preferimos sua trilha à original Danny Elfman em Batman - The Movie, já que são díspares em estilo, Superman Returns nos evocar a comparação pura e simples do "o que é melhor?". E sem dúvida, o que há de melhor em quaisquer dos scores é John Williams. Se tirássemos deste novo álbum toda e qualquer citação a partitura original, o que sobraria? Resposta: Quase que mais um amontoado de insípidas partituras da moda, mas que de modo convincente, como dizem: "funcional"; aglutinadas aos imortais temas de Williams, sob os quais escondem suas deficiências, executam o trabalho ao qual se propõem: Musicar um filme lembrando, e apenas lembrando, por entre as distorções dos novos e estéreis tempos, as grandes trilhas do passado.



PIRATAS DO CARIBE – O Baú da Morte  




(Pirates of the Caribbean - Dead mans chest)


Composed by Hans Zimmer


2006 - 12 faixas/Duração: 58:32


Cotação: **






Há dois grandes pensamentos que costumo aplicar a minha vida profissional... Eles dizem o seguinte: "Acatar toda autoridade prejudica a criatividade"; "Muita especialização, só pensando na utilidade direta das coisas, é a morte do espírito.", assim descreveu Albert Einstein o segredo de suas criações. Assim ele descreveu o que todos que desejam seu espírito criativo livre devem evitar.


Essas são verdades que se aplicam a todas as áreas do conhecimento e da criação humana... O senso prático aleija a criatividade! E a busca por cada vez mais altos ganhos é uma manifestação cruel deste fato que atinge em cheio o já propagado ponto mais fraco, e também um dos mais importantes da estrutura de um filme... A sua música.


Depois de mais de uma década de decadência, a Walt Disney finalmente voltou a liderar as bilheterias e produziu o grande sucesso que é "Piratas no Caribe – O Baú da Morte". Há muito, os estúdios Disney só produziam decepções financeiras, os prêmios desapareceram, o presidente foi demitido vergonhosamente e os parques temáticos estavam definhando depois dos ataques de 11 de setembro. Se alguma coisa funcionou lá ultimamente foi a aliança com a Pixar. Pois que agora o sucesso voltou de maneira inusitada e ao custo da coerência e do bom-senso que sempre caracterizaram suas produções de êxito. Uma decisão dos executivos resolveu fazer um filme baseado num dos brinquedos da Disneyworld (os tais Piratas do Caribe) como forma de atrair mais público e tentar reerguer o complexo de diversão. Chamaram para a tarefa o mais importante produtor de Hollywood hoje, o republicano ferrenho, conservador assumido, partidário de Bush, que esteve à frente de patriotadas como Pearl Harbor e Falcão Negro em Perigo, além de alguns dos maiores sucessos nos últimos anos: Armageddon, Con-Air, A Rocha, Inimigo do Estado e Rei Arthur (este último, aparentemente, seu único fracasso). Portanto "Piratas do Caribe" se tornaria um filme de produtor, Jerry Bruckheimer, como se fazia na Hollywood dos anos 50 e 60. Juntando-se a isto, Johnny Depp que jamais havia estrelado uma produção que tivesse alcançado um sucesso inquestionável de bilheteria – com Piratas do Caribe: A Maldição do Pérola Negra, o ator finalmente tornou-se sinônimo de dinheiro em caixa. Este êxito, aliás, mais que merecido, já que grande parte do charme daquele longa residia justamente na composição corajosamente atípica de Depp. Assim encontramos "Piratas do Caribe: O baú da Morte", onde, aliás, seu personagem perde importância, sendo quase que ofuscado pela rede de incoerências que domina esta trama, onde ele é apenas mais um entre os vários personagens que perseguem o cobiçado e misterioso baú do subtítulo, cujo conteúdo pode trazer ao seu detentor um poder inigualável: enquanto procura descobrir o paradeiro do baú (e de sua chave), Sparrow deve lidar com o (supostamente) assustador capitão Davy Jones (Nighy), que alega ter direitos sobre sua alma; com seu velho conhecido Will Turner (Bloom), que precisa do auxílio do pirata para libertar sua amada Elizabeth (Knightley); com o vingativo ex-comodoro Norrington (Davenport), que atribui seu declínio ao fato de não ter conseguido executar Sparrow; e, é claro, com sua própria tripulação, que nem sempre parece estar disposta a seguir cegamente suas ordens. Deste modo, para o sucesso, tanto o produtor e empresa deixaram de lado a proposta "ingênua", segundo eles, do que seria "um filme para toda a família" e juntos fizeram um grande filme entretenimento —, longo, cansativo, de memoráveis efeitos, nenhuma coerência e de estrondoso sucesso de bilheteria; o que levaria qualquer um a concluir que assim se ganha o público, hipnotizado frente a efeitos visuais e gracinhas triviais. Portanto teremos um terceiro filme...


Assim Bruckheimer na música encontra Zimmer como seu fiel escudeiro, disposto a qualquer aforismo modista ou lampejo de "criatividade" deste produtor convicto de seus preceitos e, até então, vitorioso por isso. O que falar de "The Kraken" (Faixa 02) e seu destempero roqueiro? Como alguém que permite a adição em seu álbum, nos minutos finais (Faixa 12), por sete e terríveis minutos, de uma música disforme e aparvalhada, pode ser levado a sério? Entretanto, podemos ouvir neste álbum bons momentos como a faixa de abertura, mas há falta de homogeneidade durante nossa audição em que por momentos extensos descemos ao inferno, mas quase nunca ascendemos aos céus numa oscilação estranha e desconfortável que preferiria evitar.


Hans Zimmer e sua capacidade camaleônica de se adequar a cada filme novo sem nenhum limite ou fidelidade de estilo, certamente nunca conseguiria agradar a todos, mesmo os que em algum momento tenham gostado de algum de seus trabalhos predecessores. Seu caráter musical pautado na falta de personalidade ou claro fluxo evolutivo, nele completamente irregular, não o tornara nada confiável em mais de 20 anos de carreira onde suas obras têm sido as mais díspares possíveis, surpreendendo-nos sempre, mesmo que negativamente. Pois se em um momento demonstra certa maturidade em um filme como "Código Da Vinci", em seguida põe tudo a perder com insignificantes e apagadas criações em "Piratas do Caribe: O Baú da Morte", mesmo que em meio a momentos bons, como os que encontramos, azedam a impressão geral — que em seu caso, desde o início, e por tudo isso, sempre é marcada por desconfiança.


Assim sendo, passemos a descrição e análise faixa a faixa:


"Jack Sparrow" (Faixa 01 - 06:06): É o tema principal do score, o tema de Jack, dançante e extremamente envolvente por meio do solo de cello de Martin Tillmann na melhor tradição marinheira — um concerto para cello e orquestra. Uma opção que ajuda a tecer, com a orquestra incorporando-se progressivamente e dando corpo de waltz a melodia, um dos temas mais originais e poderosos da carreira de Zimmer.


"The Kraken" (Faixa 02 - 06:55): Se a faixa anterior nos mostra intensidade, o poder da orquestra, dos leit motivs contundentes, esta nova peça, em extremo contraste, todavia parece vir de outro mundo onde a elaborada orquestração dá lugar a simplória música pop tocada com um instrumento estranho chamado "orquestra". É uma provocação aberta a todos que amam a música orquestral, na qual Zimmer utiliza sem limites as guitarras elétricas e ritmos hardcores para construir uma bizarra passagem musical que fundamenta o tema de Kraken. A introdução do órgão para desenvolver uma das passagens melódicas, termina convertendo esta confusão musical no que poderíamos denominar réquiem roqueiro.


"Davy Jones" (Faixa 03 - 03:15): A delicadeza e intimismo da caixinha de música apresenta-se de inicio como a chave do tema de Davy Jones. Uma evocação melódica na qual, aos poucos, vão se incorporando as cordas, madeiras, coro, órgão e percussão. Ostinato que eleva o valor desta passagem, que passa do singelo ao épico, mas chegando a este, carece de maior desenvolvimento que o contrastasse melodicamente com a parte anterior.


"Ive Got My Eye on You" (Faixa 04 - 02:25): Zimmer decide lançar mão de uma paisagem mais pesada, primeiro com uma construção atmosférica opressiva e obscura, muito similar ao do primeiro "Piratas do Caribe". A este início dissonante e ameaçador juntam-se um coro extraído diretamente de "O Pacificador" e que precede o crescendo heróico do tema central composto por Badelt para o primeiro filme, desta vez por meio de uma orquestra real. A faixa termina com uma nova recapitulação do tema de Jack por meio do cello de Tillmann.


"Dinner is Served" (Faixa 05 - 01:30): A faixa se inicia com poderosas percussões, acompanhadas por um entoar étnico feminino e metais, e que de repente se transforma num elegante e, mais uma vez, divertido waltz.


"Tia Dalma" (Faixa 06 - 03:57): Em seu início trás a lembrança do tema do Pérola Negra, logo
revertendo-se num ambiente opressivo. Novamente ouvimos o lamento étnico feminino, guitarras dissonantes… Reencontramos o Zimmer de "O Código Da Vinci"? Sem dúvida, pela expressão da música assim parece com sua base nas cordas e coro espiritual. Nas cordas graves ouvimos uma variação sombria do tema de Jack. É a forma de Zimmer plasmar o encontro entre Jack e a líder voodoo.


"Two Hornpipes" (Faixa 07 - 01:14): Tema de uso escasso durante o filme, onde um acordeom e uma rabeca levam a cabo sua particular batalha de contraponto e desenvolvimento melódico. Um interessante divertimento que rompe a dinâmica melancólica na qual estava incidindo o álbum neste momento.


"A Family Affair" (Faixa 08 - 03:34): De início escutamos o esboço de um novo tema no âmago de um adágio Zimmeriano para cordas, interrompido pelo staccato das cordas que nos levam novamente ao tema do Pérola Negra na sonoridade consistente dos metais e do coro. A música ganha um vigor dramático em sua parte final por meio do solo de violino sob o comando de Hugh Marsh, desenvolvendo o tema de Davy Jones em uma versão realmente apreciável.


"Wheel of Fortune" (Faixa 09 - 06:45): Mais uma faixa de ação na melhor tradição do gênero por meio de diferentes leit motivs (o de Jack Sparrow, o principal de Piratas de Caribe, o de Davy Jones e do Kranken), no entanto, seguindo os parâmetros de Zimmer, onde a orquestra eleva sua "contribuição" através da força dos sintetizadores, com os metais alcançado pontos realmente altos, e as percussões ao máximo nível.


"You Look Good Jack" (Faixa 10 - 05:34): Sinuosa e atmosférica faixa, cuja linearidade é interrompida por uma rápida e intensa secção de ação, protagonizada pelas percussões e guitarras elétricas, antes de voltar ao campo da indefinição e incidentalidade.


"Hello Beastie" (Faixa 11 - 10:15): Aqui encontramos a faixa mais longa do álbum. Típico final Zimmeriano nos últimos anos como em "O Último Samurai", "King Arthur", "Batman Begins" ou "O Código Da Vinci"). As cordas e o coro protagonizam o desenvolvimento elegíaco da música, com acertado interlúdio do tema de Piratas do Caribe. Nada novo na carreira do compositor, mas um recurso sempre estimulante. A Faixa se finda com uma recapitulação do tema original de Jack Sparrow, mas desta vez por meio da orquestra completa.


"He is A Pirate (Tiësto Remix)" (Faixa 12 [Bonus Track] - 07:02): Quanto menos falarmos desta atrocidade perpetrada melhor... Sete lamentáveis e insuportáveis minutos de música eletrônica, onde supostamente se homenageia o tema principal de Piratas do Caribe. Um desperdício. Um insulto a qualquer entusiasta da música de cinema que compre este disco. Só isso já desqualificaria este álbum. Mas vamos ser condescendentes...


Para fazer esta resenha tive a insatisfação de assistir a um dos piores filmes ao qual já me expus... Portanto resenhar esta compilação musical não foi tarefa fácil, pois que alguns já haviam catalogado esta trilha como uma das piores da carreira do compositor alemão. Então tive que ouvir e ver para crer; e por desgraça tenho que dizer que isto está próximo da realidade, já que provavelmente este também é um dos piores filmes no qual Zimmer trabalhou.


Desvencilhando-me dos inevitáveis preconceitos, posso dizer que sua predecessora, "Piratas do Caribe: A Maldição do Pérola Negra", uma das trilhas sonoras mais controvertidas dos últimos anos, é inferior a esta nova. Em ambos os casos os scores funcionam quase que perfeitamente acoplados as imagens e indissociáveis da história... A diferença, já apontada por alguns, é de que se o primeiro era uma compilação de samples mesclada e arranjada por 10 compositores, a segunda é uma evolução lógica e amadurecida das melhores idéias de sua predecessora, com o acréscimo, é claro, do toque grosseiro, diria depravado, do rock pretendido por Bruckheimer que bem se associa a própria mentalidade rufinesca e canalha dos piratas.

O NOVO MUNDO  


(The New World)


Composed & Conductor by James Horner


Performerby The Hollywood Studio Symphony


2005 - 13 faixas/Duração: 79:29


Cotação: **


O que dizer de um mímico em frente ao espelho?


Assim, talvez melhor pudéssemos descrever os últimos trabalhos do californiano James Horner que talvez tenha atingido o ápice de seu "método" em "The New World". Seus despropósitos auto-plagísticos e sua incipiência melódica atual são já há um bom tempo defeitos dele indissociáveis, mas quando isso ocorre num filme de vibrantes ambições artísticas, as coisas tendem a se maximizar, se tornando assim também mais difíceis de serem perdoadas.


Mesmo com apenas dois filmes no currículo, o roteirista e diretor Terrence Malick conseguiu uma grande reputação com a crítica e depois de uma ausência de 20 anos, retornou com "Além da Linha Vermelha", pelo qual foi indicado a sete Oscars. Então agora, Malick, realizou "O Novo Mundo", um projeto antigo seu que retrata o famoso romance entre John Smith (Colin Farrell) e a índia americana Pocahontas (Q´Orianka Kilcher, de apenas 15 anos na época das filmagens). Com luz natural, de forma lenta e com poucos diálogos, o filme vai mostrando como chegaram os colonizadores ingleses em 1607 à região dos índios algonquins, onde aos poucos surge o romance improvável. Há um aprofundamento não visto recentemente no cinema comercial para esse tipo de situação. O que ocorre entre ambos os personagens é semeado, regado e cuidado. Não há um só momento em que esse improvável caso se torne irrealista ou soe falso. O Novo Mundo é um épico em estilo e ritmo diferenciados; para alguns, enfadonho, mas para mim, um exercício de sutilezas, onde a beleza pode ser descria sem pressa. Não é um filme sobre grandes navegações ou descobertas na América, como o título pode erroneamente indicar. É um épico sobre o amor. Sobre como dois seres humanos de culturas e vidas tão distintas podem se apaixonar, e como a separação pode ser dolorosa. Retrata a força de vontade, quase sobre-humana, para esquecer a quem se ama. Retrata o renascimento do amor em formas inesperadas. O filme é de fato "poesia visual". Também não é um épico sobre grandes conquistas. Não deve ser julgado como tal. É mais simples, ao mesmo tempo em que também pode ser considerado infinitamente mais complexo, tanto quanto a vida pode ser. Deve ser sentido, não assistido. As imagens fluem, às vezes como recortes desconexos, sem sentido. Alguns cortes parecem deslocados, gerando um efeito quase hipnotizante – e bom! Não são poucos os momentos em que entramos nos pensamentos mais profundos dos personagens que, através de uma apropriada narração in off. As imagens da floresta, praticamente virgem, sendo exploradas pela primeira vez pelos ingleses, propiciam um clima perfeito para o diretor explorar e brincar com sua câmera. Tem suas falhas, é verdade, mas são apenas arranhões em uma paisagem muito maior. E quando, no ato final, o filme vai para a Inglaterra, Malick surpreende com construções e recriação de época impecáveis.


Assim, para surpresa de todos, um dos mais controvertidos e importantes elementos de um filme, a sua musica, ficou a cargo do não muito menos controvertido compositor: James Horner. Deixando de lado a surpresa inicial, a sua musica acabou por se traduzir numa partitura que, como temíamos, não deixa lugar para surpresas; frustrando aqueles que esperavam que, sobre o auspício de Malick, o compositor seria forçado a experimentar ambientes musicais distintos dos que ele nos acostumou. Mas, ao contrario, Horner parece mais assentado do que nunca em seu "estilo particular".


Se estabelecêssemos como premissa que estamos ouvindo pela primeira vez uma trilha de Horner, em um filme qualquer, poderíamos dizer que estamos diante de um score preciosista, sereno, assentado num tipo de música descritiva e intimista; na qual não se renuncia a instantes de preciosismo melódicos – fato inusitado nos filmes de Malick, mas quase coerente com a grandeza das paisagens mostradas. Estamos definitivamente diante de uma partitura afável, sentimental em suas formas... Mas lembrando-se de que Horner já é um compositor experiente e premiado, percebemos uma partitura absolutamente previsível e monótona que acaba por deixar o ouvinte com a amarga sensação de já ter ouvido esta musica em algum lugar. Já aqueles que conhecem bem a obra do compositor podem inclusive prognosticar certos acordes antes que estes soem; circunstancia que corresponde em bem pouco a originalidade de um trabalho destinado a um cineasta "rupturista". Naturalmente o diretor optou por rejeitar grande parte da música original de Horner. De fato a musica no filme é pontuada em grande parte por partituras eruditas diversas (em especial por fragmentos do Anel dos Nibelungos de Wagner), o que parece uma decisão extrema de um diretor que teve varias divergências artísticas com o compositor no processo de criação da trilha.


O tema principal, insolente coletânea melódica de outros main themes já conhecidos do autor, se converte em um recurso tremendamente pegajoso, de irrupção continua e artificial utilização por Horner. Sem contar os insólitos samplers do trinar de pássaros que seguidamente insurgem azucrinantemente nas faixas, o compositor se limita, como vem fazendo assiduamente há muito tempo, a desenvolver a partitura com base em mais ou menos descaradas variações de seu leit motiv central, alargando suas frases e rearranjando seus registros melódicos (seus orquestradores são precisamente os que vem salvando atualmente a sua musica da mediocridade mais absoluta). É uma melodia singela, pretendidamente cálida, a qual tanto o piano, quanto os coros femininos, dotaram de uma aura emotiva, como podemos ouvir nas faixas "A Flame Within" (Faixa 03) e "Forbidden Corn" (Faixa 08), e posteriormente apresentada em sua versão mais épica nas cordas nos primeiros seis minutos de "All Is Lost" (Faixa 11). Com esta mesma melodia ele compôs a canção contida nos créditos finais, "Listen to the Wind" (Faixa 13), interpretada pela angelical voz de Haley Westenra, neozelandesa de dezoito anos.


Horner recorre também ao leitmotiv central ao utilizá-lo como love theme na faixa "Pocahontas and Smith" (Faixa 07), sem conseguir, portanto, evocar o lendário romance de seres antagônicos. O que dizer então de um ema de batalha que parece extraído integralmente do repertorio bélico de William Wallace de "Braveheart", assim encontramos "Winter / Battle" (Faixa 10).


No entanto; por entre a quase absoluta falta de originalidade em auto-referências a scores anteriores como "Braveheart", "O Homem Bicentenário" ou aos coros sintéticos reciclados diretamente de "Titanic"; há curtos momentos em que nos deparamos com trechos musicais interessantes; podendo destacar-se, por sob a camada importuna de efeitos sonoros, a faixa "Of The Forest" (Faixa 06); exemplo inequívoco de que o autor, até mesmo em suas obras mais tediosas, segue oferecendo mostras de que um dia pode despertar de pesadelos recorrentes, pululados de musicas igualmente recorrentes e compor algo de verdadeiramente novo.


Sendo ainda mais condescendente, posso reafirmar, que esquecendo o fato de Horner ser quem e, e ter feio o que fez, esta obra pode ser apreciada em sua devida medida: subtraídos os efeitos sonoros, definida e contida em si mesma, sem referências, seja a historia a qual acompanha, ou ao passado. Só assim abriremos caminho para provarmos sua tênue e oculta beleza.

O SENHOR DAS ARMAS  



(Lord of War)


Composta por Antonio Pinto


Performances de Nelson Rios, Joao Do Bandolin,


Edson Guideitti, Gui Amabis, Bob Suetholz,


Antonio Pinto, Mauricio Alves, Alexandre Mazac,


Yaniel Mattos, Luis Brito


Regido por Ed Cortes


2005 - 15 faixas/Duração: 38:26


Cotação: ***½


É com satisfação que me imponho a tarefa de resenhar este trabalho; primeiro, por ser um ardoroso fã da música de cena; segundo, por Antônio Pinto ser um compositor brasileiro, o que me impõe a difícil tarefa da crítica imparcial e até certo ponto ainda mais severa.


***


Tudo começou no quarto de um apartamento na Lagoa, no Rio, onde Antônio Pinto morava e guardava seus instrumentos: uma bateria, um violão e um piano herdado da avó. Foi lá que o compositor e arranjador carioca, hoje com 39 anos, ainda menino, iniciou uma carreira musical que o levou à Hollywood.


Adolescente, ganhou um teclado eletrônico e um computador com partituras e programas que lhe permitiram compor, mais tarde, já adulto, os temas e as trilhas sonoras de diversos filmes.


Foi providencial para sua carreira, ser filho do jornalista e desenhista Ziraldo, tendo assim alcançado sua primeira oportunidade de trabalho com o filme "O Menino Maluquinho", de 1994, baseado no livro mais célebre de seu pai. Logo se firmou, e desde o início desde século é tido como um dos principais compositores contemporâneos de trilhas sonoras do país. Com o talento prontamente reconhecido, Antônio foi convidado a fazer as trilhas de alguns dos principais filmes do renascimento do cinema nacional, entre eles os indicados ao Oscar "Central do Brasil" de Walter Salles e "Cidade de Deus" de Fernando Meirelles. No entanto sua maior contribuição para a trilha sonora nacional foi com sua composição para "Abril Despedaçado", filme injustiçado e quase esquecido, estrelado por Rodrigo Santoro e José Dumont. Parte da aridez, da beleza descomunal do filme de Walter Salles deve-se a sua música. Antonio Pinto compôs uma trilha belíssima, com temas marcantes, indiscutivelmente, uma das melhores trilhas do cinema nacional.


Por sua trilha em "Cidade de Deus", em 2005 na Bélgica, recebeu, como revelação do ano, o prêmio World Soundtrack Awards, o mais importante entre os conferidos aos compositores de trilhas sonoras de cinema. E lá, providencialmente, conhecera o ator e diretor indiano Shekar Kapur, de quem se tornou grande amigo; e ele, por fim, o apresentou, em Hollywood, ao diretor Andrew Niccol, o realizador de Gattaca e Truman Show, resultando no convite para assinar a trilha de "O Senhor das Armas".


Contudo, Antônio Pinto estreou em Hollywood quase que involuntariamente com uma participação na trilha sonora do filme "Collateral" de Michael Mann que em sua obsessão pelos temptrack incluiu em seu filme peças memoráveis de Antônio Pinto compostas originalmente para "Abril Despedaçado"
que neste novo filme se converteram em protagonistas
da trilha sonora encabeçada por
James Newton Howard que teve suas músicas substituídas em momentos pelas de Pinto. Sendo assim a faixa réquiem de sua autoria, a última do álbum, lhe rendeu elogios entusiasmados por sua conotação melancólica e ao mesmo tempo esperançosa.


Agora ele retorna à cena, ao lado de seu habitual colaborador Ed Côrtes, assinando a trilha sonora original do filme "Lord of War" (O Senhor das Armas) que conta a trajetória do traficante de armas Yuri Orlov (Nicolas Cage) que percorre o mundo negociando armas com guerrilheiros, perseguido pela Interpol, personificada na personagem de Ethan Hawke, o agente Jack Valentine.


Falando um pouco sobre o filme, preciso dizer que "O Senhor das Armas" é um semi-documentário narrado de forma maçante e sem qualquer sentido cinematográfico. Tudo parece surreal e burlesco, uma serie de dados estatísticos e lugares comuns cheios de idéias politicamente corretas sobre o mal que as armas causam ao mundo, que os vilões são, não só os grandes ditadores, mas os grandes países mundiais. O personagem de Nicolas Cage que negociara armas ao longo de décadas – durante e após a guerra fria – no horizonte temporal do filme de mais de vinte anos, não envelhece nem evoluí um só minuto.


Entretanto a música que Antônio Pinto escreveu para "O Senhor das Armas" é um trabalho de inspirado poder ambiental, com a corajosa, ou talvez, em alguns momentos poderia dizer, imprudente utilização de vários estilos (música eletrônica, acústico-solista e étnica) e grande variedade temática, que desta forma poderia imprimir ao disco uma difícil coesão; de tal modo que com seu arranhar acústico em violões e bandolins, influências árabes e africanas e seu trabalho eletrônico nada sutil, não chega a entusiasmar.


Sua trilha, em meio à massiva utilização de música pop e trechos de música erudita durante (Ride of the Valkyrie de Wagner, Suan Lake - Lake In Moonlight de Tchaikovsky, etc) apenas se resigna a discretas aparições, como já é de seu hábito. No entanto quando surge—, surge com competência e se integra perfeitamente à cena; revelando-se na parte final do filme com mais intensidade em meio à instauração do drama pessoal de Orlov (Nicolas Cage) e sua crise de identidade.


Mas grandes momentos são perdidos para a música pop como a seqüência de abertura, uma criativa apresentação que nos leva a seguir o percurso que faz uma bala, desde o seu "nascimento" até ao momento em que se aloja no crânio de uma qualquer criança num qualquer país da áfrica subariana. Já aqui, temos uma idéia do que está por vir — uma oportunidade de criação musical perdida e um prelúdio de toda a abordagem musical implementada.


Há também um importante momento perdido para a música erudita: a cena na qual Orlov manuseia suas armas AK-47, descrevendo-as in off, enquanto ao fundo, caminhões carregados cruzam o horizonte e ouvimos a belíssima música de Tchaikovsky.


Nesta trilha encontramos novamente a rabeca, que persiste como trademarck de seu trabalho, em alguns momentos, talvez mais como uma limitação, do que como opção de estilo. Aliás, é necessário dizer que este instrumento surge como uma inovação em meio aos "instrumentos étnicos" clichês como o duduk e o Ney que um dia provavelmente estarão assentados em uma velha estante, em um lugar qualquer, acumulando pó ao lado das vocalistas étnicas que povoam hoje a música de cinema
—, creio que eles se lembrarão dos bons tempos em que eram moda.


Para fins práticos, podemos dizer que esta trilha é dividida em dois momentos musicais distintos: um mais acústico e criativo; e outro eletrônico e preguiçoso. Existem basicamente quatro temas bem definidos, o primeiro identificado com o warlord personificado por Cage e apresentada na primeira faixa; um outro que se identifica com a ameaça policial representada por uma mescla de ritmos eletrônicos; outro que representa a morte na sonoridade melancólica e áspera da rabeca e por fim a
consciência apresentada como uma elegia para cordas e notas dedilhadas ao piano — todas são recorrentes na obra e por isso bem identificadas.


Percorramos então meticulosamente as faixas deste álbum:


"Lord of War" (Faixa 01 – 03:09 ) — Aqui talvez esteja um de seus melhores momentos, com uma melancólica simplicidade a faixa de abertura do CD apresenta o tema warlord que será usado como fio condutor de toda trilha; e reaparecerá mais tarde, como uma reexposição da forma sonata, na última faixa, "Warlord" (Faixa 15), quase que intacta em meio a adição tímida da massa orquestral e da transposição de seu tema, tirado do violão e dado ao piano. Tendo como base o violão, a faixa é iniciada com um ostinato que, posteriormente variado, se transformará em um dos principais temas do álbum; ao fundo surge em contraponto indo e vindo uma guitarra elétrica, pacata, metálica e seca. Este embate desaparece para surgir finalmente a esperada variação do ostinato que se repete e dá origem a outra camada melódica imediatamente acima, logo assumida por completo pelo violão e a guitarra elétrica que ressurge em contratempo e que por fim liberta o bandolim que dá origem a uma magnífica sucessão de variações num duelo com o violão deixando a guitarra ao fundo somente acentuando um ambiente de tênue instabilidade — algo está "errado"! É neste instante que a música é justificada e encontra seu fim na reapresentação, pelo violão, do tema que deu origem a tudo sobre o ostinato que agora retorna, como se a música retrocedesse, fechando o ciclo e a faixa que no surgir desencontrado do bandolim e da guitarra tem seu fim e temos certeza de que algo realmente está "errado". Lamentavelmente esta faixa não encontra seu lugar no filme, aparecendo apenas no trecho já citado de "Warlord".


"Little Odessa"(Faixa 02 – 02:50) — É um elegante waltz que tem início numa pacata cena num restaurante familiar e leva o seu tema central — onde restam os ecos do tema anterior —, vibrantemente executado com mandolina e bandolim a um efeito interessante, cheio de uma peculiar inquietação e um senso de fatalidade, digna da escrita de Nino Rota, com evidentes traços do mestre. Pois é quando ao atravessar a rua, Orlov presencia uma disputa armada da Máfia Russa; e o tema, através da massa orquestral das cordas, se amplia, insurgindo das reminiscências musicais da mediterrânica Europa, em um vibrante solo de violino. Aqui, sem dúvida, está o melhor momento deste álbum.


"Ava's Arms" (Faixa 03 – 02:00) — A partir desta faixa ao álbum ganha homogeneidade, mas parece se perder em qualidade efetiva. Em torno de uma etérea atmosfera de sintetizadores, como refresco em meio ao óbvio, surge a rabeca e sua peculiar sonoridade em um lamento com ares étnicos; por fim a comovente introdução da massa de cordas — é a primeira representação da morte... É a cena em que os irmãos Orlov testemunham, por detrás de uma parede ruída, a execução de guerrilheiros, alguns, ainda crianças.


"By Sea" (Faixa 04 – 03:14) — Nesta faixa encontramos uma mistura de familiares ritmos nordestinos e efeito eletrônicos, atmosferas dissonantes e um toque étnico, numa evolução progressiva e intensa à medida que se introduz a orquestra em contraponto a melodia principal; uma idéia que posteriormente será repetida com idêntica estrutura em "By Air" e figura como o tema da ameaça policial. Para alguns este tema é uma clara referência a "Black Hawk Down" de Hans Zimmer, principalmente a trechos da faixa "Sychrotone" daquele álbum —, mas não acredito nesta tese somente motivada pela aproximação dos estilos na utilização de recursos eletrônicos em meio a sonoridade étnica—, fato comum aos dois trabalhos.


"Andina" (Faixa 05 – 01:25) — Retomando a pureza acústica, em contraste à linha eletroacústica que se vinha traçando desde "Ava's Arms" (Faixa 03), recorre-se novamente ao violão e bandolim, buscando a sonoridade da faixa de abertura "Lord of War" (Faixa 01), mas agora com a introdução de uma nova gama temática.


"Love Deception" (Faixa 06 – 03:43) — O tema central, warlord, aqui executado pelo Reed Organ e pelo Piano Elétrico, logo é envolvido por um ritmo eletrônico que prontamente desaparece para deixar apenas a tímida sonoridade inicial do tema warlord, por fim enredado pela harmonia da massa orquestral de cordas a um passo de seu desfecho.


"Consequences And Loss" (Faixa 07 – 04:26) — Ressurge a rabeca e encontramos uma peça de grande intensidade emocional que tem início com uma elegia para cordas em textura grave que posteriormente se transformará numa interessante passagem minimalista para piano; enquanto as cordas, agora, em segundo plano, mais ambiental, se pontuam de sucintas aparições de um vocalize étnico. É o tema da consciência que retornará na faixa de mesmo nome, "Conscience" (Faixa 13).


"By Air" (Faixa 08 – 01:39) — É uma reapresentação das idéias introduzidas em "By Sea" (Faixa 03), com leves transformações e extensão reduzida.


"The Promise" (Faixa 09 – 01:46) — Elementos já conhecidos em "Love Deception" (Faixa 06) são reutilizados, mas com algumas variações melódicas e estruturais.


"Yakar Diamm" (Faixa 10 – 02:34) — Simplesmente não sei o que esta música esta fazendo no meio do álbum, quando de fato aparece somente nos créditos do filme. É mais uma daquelas canções originais incluídas, como de praxe, sem nenhuma função dramática. Composta talvez por A.R. Rahman, considerado um dos mais prestigiados compositores indianos, e que contribuiu com algumas passagens musicais na trilha sonora, e às vezes em colaboração com Antônio Pinto. Há de sua autoria talvez, apresentada na cena em que o avião é "desmanchado", uma música que não entrou no cd, executada por um solo de flauta em meio à marcação da celestra.


"Everything That Comes From The Earth" (Faixa 11 – 01:24) — Esta faixa e a seguinte revelam um compositor mais descritivo e ambiental que nas passagens anteriores. Em ambos os casos as cordas são grandes protagonistas, potencializa sua acústica através de elevadas reverberações.


"Truth" (Faixa 12 – 03:01) — É um bom exemplo do estilo puramente ambiental, trazendo idéias musicais independentes que coexistem em leve dissonância.


"Conscience" (Faixa 13 – 02:06) — Uma reapresentação de "Consequences And Loss" (Faixa 07), porém mais breve.


"AK-47 Love" (Faixa 14 – 02:00) — O disco encontra seu fim com duas oportunas e brilhantes "re-exposições"... A primeira encontramos nesta faixa onde se resgata o waltz de "Little Odessa" (Faixa 02), só que agora despojado de parte de seu suporte rítmico, transformando-se numa faixa muito mais melancólica e austera.


"Warlord" (Faixa 15 – 03:09) — Por fim, encontramos, com a seqüência final do filme e seus créditos finais, a magistral reapresentação do tema central warlord; tendo início com o violão, como em "Lord of War" (Faixa 01), e, como de hábito em todo álbum, se convertendo, por fim, na sonoridade da orquestra de cordas que leva, junto ao piano, a partitura a seu clímax musical.


Nesta trilha a opção é pelo sutil, sem chamar a atenção do expectador que certamente se satisfaz ao ouvi-la junto ao filme, mas em CD perde força justamente quando a ganha em cena, já que suas músicas mais criativas, são justamente as mais sub-aproveitadas e recônditas em cena. Em fim, "O Senhor das Armas" de Antônio Pinto, em seus 38min26s, não é uma trilha notável, contudo satisfaz as necessidades do filme para o qual foi feito e não desagrada o ouvinte mais atento. O enredar de pacatos violões e sintetizadores estéreos não chega a ser completamente original, mas sua habilidade é suficiente para que não se desprezem seus potenciais.


Portanto, aprecie a lamúria pungente da rabeca antes que se torne outro clichê.

sábado, 24 de maio de 2008

A PROFECIA - 2006  



(THE OMEN)


Composed by Marco Betramini


Conducted by Pete Anthony


Performed by The Hollywood Studio Symphony


20 faixas/Duração: 53:57


Cotação: **1/2


Jerry Goldsmith em 1976 compôs uma das maiores trilhas sonoras da história cinematográfica para um dos mais interessantes filmes de Richard Donner. "The Omen" passara então a tomar parte na seleta lista das obras primas legadas por este compositor da sétima arte, graças a uma temática dual magistralmente balanceada: um belo tema associado a família do embaixador protagonista que avança às zonas obscuras e tensas a medida que antecipa a destruição de uma família; e um grandioso, meticuloso e adequado manejo do terror que se apóia sobre um surpreendente emprego de coros em uma partitura em espiral de angústia.


Como igualar o sucesso artístico de uma obra já consagrada? Como? O primeiro passo deve ser dado com uma boa dose de personalidade... Imitar as formas da obra pregressa, por si só, já seria um grande erro, pois assim as comparações seriam inevitavelmente suscitas e colocadas sobre o domínio da pergunta: "Qual é melhor?". Para evitar comparações diretas, nas quais a obra pregressa leva a vantagem de sua história, há de se prestar à música uma feição totalmente pessoal baseada em concepções e caminhos antes não tomados. Deve-se ter em mente que não se supera a obra em si, mas o seu mito. A superação não é de sua qualidade, pois esta está atestada por sua história, mas sim, do conceito precípuo de que ela — e nenhuma outra — poderia ocupar aquele lugar. O segundo passo, penso, está sob total domínio do compositor que não deve se comportar como um desafiante vivendo a sombra de seu desafio, mas deve se sentir provocado a provar seu valor e prestar totais esforços para que sua obra — não, como já disse, supere a outra em qualidade, mas que esta adquira qualidade própria independentemente da existência de alguma obra pregressa de um outro. Pois foi nesse segundo passo que primordialmente Marco Beltrami tropeçou não conseguindo imprimir, convincentemente, qualidade individual ao seu trabalho, mesmo em comparação a suas obras anteriores.


Com estas premissas, neste remake dirigido por John Moore, Beltrami, tendo como um de seus compositores favoritos, Goldsmith, em "The Omen" teria supostamente uma oportunidade única de demonstrar seu frescor estilístico e prestar sua homenagem ao maestro californiano em uma de suas obras chave. O resultado não podia ser mais decepcionante, firmando o compositor italiano uma de suas piores partituras. Comum, carente de emoção, sem progressão narrativa, sem força interior, a partitura carece de natureza própria. Tematicamente, Beltrami se limita a aplicar as mesmas premissas introduzidas por Goldsmith, mas permeadas por sua estética futurista e uma fraqueza de espírito patente: Beltrami contrapõe um delicado e harmônico tema para cordas, dedicado a família ("The adoption" – Faixa 02; "New house" – Faixa 04), a um desdobramento de notas entregues a percussão e frias passagens lentas que perpassam a partitura sem rigor, carecendo de um mínimo de tensão que a justifique, demonstrando que o compositor confundiu a profundidade e o medo do desconhecido, insuflado por Goldsmith, com estéreis golpes de efeito e estridentes metais.


Com um discreto apoio coral, talvez presente apenas para homenagear a trilha de 76, pronunciando as palavras latinas: sanguis-vivimus-corpus-elibus, Beltrami aposta em um tema tenso e dinâmico que sobre um ostinato de cordas alcança seu auge com a introdução da percussão e dos metais ("Main titles" – Faixa 01); tanto a estruturação da cena, quanto a forma musical lembram a abertura do filme "Hulk" de Ang Lee, com composição de Danny Elfman. Como Goldsmith, Beltrami encerra o filme com este mesmo tema quase sem alteração, é o eterno retorno ("Boy genius" – Faixa 19).


Passagens musicais memoráveis na versão antiga, como a feroz tempestade e a perseguição dos cães no cemitério, resultam desta vez em inexpressivas passagens de suspense com em "A cross to bear" (Faixa 06), ou em ruidosos e descritivos fragmentos de mera ação, quebrando as regras mínimas do terror psicológico ("Dogs in the cementery" – Faixa 14).


Ainda mais estranhas e confusas são certas decisões de Beltrami, como o exemplo de coros em fusão com incoerentes sons eletrônicos na excessiva "More tantrums" (Faixa 09), a estridência gratuita de "Altar of sacrifice" (Faixa 17) e o burlesco tom arábico de "Drive to Bugenhagen", mostras de sua falta de bom senso.


Talvez buscando comparações para as quais certamente não preparou sua música, Beltrami comete a ousadia incauta de homenagear Goldsmith com a apresentação, suavemente adaptada, dos pretéritos "Ave Satani-A doctor please-Killer storm" que coroam o álbum em "The Omen 76/06". Assumindo, assim, para si, a pergunta que não soube responder: "Afinal, como igualar um mito?"

DÁLIA NEGRA  



(The Black Dahlia)


Composed by Mark Isham


Conductor by James Shearman


15 faixas/Duração: 47:47


Cotação: ***1/2




Em uma mistura interessante de coisas contidas em um estilo quase esquecido, esta trilha chama a atenção por parecer acreditar que a revisão de formas antigas é a solução para a atual crise de criatividade das trilhas sonoras.


Por que um filme tem que ter uma trilha convencional, costumeiramente aderida a um estilo pré-fabricado? — talvez seja ser exigente demais perguntar, e com esta pergunta analisar todo um trabalho musical, mas espero cumprir o papel — por mim mesmo outorgado —, de investigar esta questão, mesmo parecendo inoportuna.


A música composta por Isham não pretende inovar, mas somente evocar da memória o passado. Refugia-se em precedentes e com isso tenta manter-se a salvo das críticas que a inovação impõe. Não sei se por covardia, ou resignação, ou por simples preciosismo da pesquisa musical, nos deparamos com esta partitura repleta de referências, mesmo que em alguns momentos subverta-as. Talvez a própria proposta constitutiva do filme, determinada por seu diretor, assi m determinou — não se sabe.


Lembra por vezes "Táxi Driver" de Bernard Herrmann, porém mais engessado nas formas e desenvolvimentos melódicos; outras vezes "Chinatown" de Jerry Goldsmith, mas sem seu experimentalismo ousado; portanto completamente dispare de Ennio Morricone em "The Untouchables", pregresso filme de Brian De Palma que entre suas inúmeras qualidades, possui uma história mais concisa e verossímil. "O Intocáveis" aposta mais na simplicidade dos conflitos e na esplendida atuação de seu elenco, que na rede obscura de mistérios que compõe Dália Negra e que por fim se revela uma extensa piada de humor negro.


Indubitavelmente, "Dália Negra" possui momentos memoráveis, boas atuações, bela fotografia, mas é, sobretudo, uma ótima história mal contada. É uma história de obsessão, amor, corrupção, cobiça e luxúria, baseada na história real de um violento crime que chocou e fascinou os Estados Unidos em 1947 – caso que permanece até hoje sem solução. Os detetives e ex-boxeadores Lee Blanchard e Bucky Bleichert são encarregados da investigação do brutal assassinato da aspirante a estrela Elizabeth Short, conhecida como a "Dália Negra". A obsessão que os dois desenvolvem por ela acaba por arruinar suas vidas. Baseado no best-seller homônimo de James Ellroy, o filme foi exibido em competição no Festival de Veneza de 2006. Se a narrativa tivesse seguido sem floreios o que diz sua sinopse, sem relegar as palavras o que a imagem foi incapaz de resolver, teríamos assistido a um dos melhores filmes já feitos. Mas...


Pois neste ambiente dramático, um tanto disforme, é que Mark Isham desenvolve sua música, lubrificando idéias antigas, personificas na previsível utilização de solos de trompete e mostrando ser grande conhecedor das estruturas e formas antigas comuns ao estilo filme noir. Isham executa uma eficiente e agradável partitura sinfônica que comunga quase que perfeitamente com as imagens para as quais foi criada, mas que em nenhum momento conhece a transcendência de suas formas.


Mark Isham diz ter se inspirado primordialmente no gênero noir patente em Dália Negra, em compositores como David Raksin e o Bernard Herrmann. Mais especificamente, aponta Leonard Bernstein, e a influência contínua do trabalho de John Adams em sua escrita para este filme. Há também um toque do Goldsmith Jerry, que marcou com sua música uma outra adaptação noir de uma novela de Ellroy, "Los Angeles – Cidade Proibida" em 1997.


Isham escreveu muitos temas para vários elementos presentes no filme, ele mesmo executando todos os solos de trompete — alguns deles recorrentes, outros fugazes. Assim, depois de haver rondado nossos ouvidos com seus temas recorrentes e instrumentação previsível, eis que ao final sua música acaba por se esfumaçar como se nunca tivesse estado ali. Mas esteve, pena que nossos ouvidos não eternizam músicas que são apenas tecnicamente memoráveis e querem fortes emoções.

OSCAR 2008  

AND THE OSCAR
GOES TO...

Uma breve resenha das partituras indicadas ao Oscar 2008


THE KITE RUNNER

Alberto Iglesias

"The Kite Runner" de Khaled Hosseini, livro publicada como "O Caçador de Pipas" em nosso país) é a comovedora história de dois pais e dois filhos, de sua amizade e de como o destino une vidas. De forma semelhante ao "The Constant Gardener", o compositor espanhol, Alberto Iglesias, transita nos caminhos da fusão entre a música sinfônica e a étnica. Nesta oportunidade, a sonoridade buscada é a do oriente médio, e Iglesias o faz a partir da utilização ostensiva de um heterodoxo ensamble, diferentes flautas, duduk, percussão, violão e outros instrumentos de corda, e claro as "imprescindíveis" vozes árabes solistas, em combinação com a orquestra e instrumentos eletrônicos. Em momentos como "Kite Tournament", a música adquire uma forma mais ocidental, mas o uso da instrumentação étnica mantém homogênea a partitura e permite passar de um estilo a outro de uma maneira que resulta fluida e natural. De resto, o trabalho de Iglesias apresenta diversas abordagens dramáticas: momento de uma contagiosa hipérbole, outros de serena contemplação, obscura pinceladas de suspense, musica atonal e melodias tristes. Com um conjunto de criações dissolutas, sem coesão interna além de sua instrumentação, Iglesias parece tentar — abnegado da própria musicalidade — aplicar a música como um acessório a imagem cumprindo sua função efetiva sem se ater aos "detalhes" como originalidade, coerência e conteúdo.

ATONEMENT

Dario Marianelli

Indicado em sete categorias, "Atonement" é uma das fortes candidatas do ano e uma dos dois filmes nesta categoria que competem também pelo premio principal de melhor filme. O Trabalho de Marianeli para este filme é de natureza intimista, elegante e refinada, deliberadamente conservador no uso das harmonias, evocando assim a sonoridade característica do período romântico. Em algumas passagens o compositor acena com a inclusão de ornamentos da Nona Sinfonia de Beethoven em sua rápida escrita para cordas, que junto ao piano são grandes protagonistas da partitura. Com efeito, a orquestração de Marianelli se apóia fundamentalmente sobre os arcos, tratados em diferentes combinações que vão do tutti ao duo para cello e piano, passando pelo trio para violino, cello e piano ou ocasiões de concerto onde a orquestra acompanha o canto de algum instrumento solista como clarinete ou o cello. Na "Elegy for Dunkirk", Marianelli consegue uma bela utilização do coro masculino de forma crua, como se compusessem a cena, nos momentos mais intrigantes da partitura. Em momentos o som de uma máquina de escrever, parecendo ecoar da primeira cena como um leit motiv, é utilizado para marcar o ritmo. Pela indubitável qualidade da música, concisa e coerente, esta partitura me conquistou a preferência.

MICHAEL CLAYTON

James Newton Howard

O que poderia explicar que esta composição absolutamente superficial tenha sido indicada como uma das melhores partituras originais? Somente o êxito do filme protagonizado por George Clooney que também concorre em outras categorias, incluído "melhor filme". James Newton Howard é sem dúvida um dos mais importantes compositores da atualidade, mas que um trabalho seja considerado um dos melhores do ano somente por cumprir discretamente seu papel, resulta, a julgar pelos últimos anos, em um dos mais repugnantes costumes deste prêmio. Não examinarei aqui o fato de a música ser ou não apropriada para o contexto do filme, mas sua pobreza resumida a passagens meramente ambientais, baseada em fundos estáticos de cordas, bases percussivas e alguns ostinatos me faz elegê-la mais desqualificada para compor este grupo.

3:10 TO YUMA

Marco Beltrami

Esta partitura é uma mistura muito bem acertada entre o espírito musical do "spaghetti western" patenteado pelo italiano Ennio Morricone ("Era uma Vez no Oeste", Sergio Leone, 1968)e o estilo sinfônico obscuro e austero de Jerry Fielding ("The Outlaw Josey Wales", Clint Eastwood, 1976) e as inquietantes sonoridades do thriller contemporâneo definem o trabalho de Marco Beltrami para este remake de um clássico filme de Cowboy. Cordas, violões, solos de trompete, muita percussão e timbres eletrônicos compõem o extravagante, mas efetiva ensamble instrumental a que Beltrami recorre para atualizar a sonoridade de um gênero que já transitou por diversas fases. Com efeito, ninguém deve esperar aqui as eufóricas orquestrações de um Elmer Bernstein ou um Bruce Broughton. A composição é mais rítmica e textural que melódica, sendo este último aspecto representado em sua maior parte por um enigmático motivo de três notas que acaba por adquirir conotações dramáticas e até épicos com a apropriada mudança de contexto harmônico.

RATATOUILLE

Michael Giacchino

Apesar dos ares franceses e latinos em variadas passagens, previsível conseqüência do roteiro para o qual foi composto, o trabalho do ascendente Michael Giacchino para este filme resulta na mais Hollywoodiana dos cinco candidatos. A música se apega bastante aos cânones tradicionais das comédias de desenhos animados, com uma colorida utilização da orquestra e muitos elementos de jazz e música popular. Acordeons, violões e bateria se põem em pé de igualdade com as texturas sinfônicas para narrar as diferentes instâncias e momentos da aventura do ratinho que quer ser chef. Sem ser uma das maiores composições de Giacchino, a música não carece de energia e divertida ingenuidade.