domingo, 25 de maio de 2008

PIRATAS DO CARIBE – O Baú da Morte  




(Pirates of the Caribbean - Dead mans chest)


Composed by Hans Zimmer


2006 - 12 faixas/Duração: 58:32


Cotação: **






Há dois grandes pensamentos que costumo aplicar a minha vida profissional... Eles dizem o seguinte: "Acatar toda autoridade prejudica a criatividade"; "Muita especialização, só pensando na utilidade direta das coisas, é a morte do espírito.", assim descreveu Albert Einstein o segredo de suas criações. Assim ele descreveu o que todos que desejam seu espírito criativo livre devem evitar.


Essas são verdades que se aplicam a todas as áreas do conhecimento e da criação humana... O senso prático aleija a criatividade! E a busca por cada vez mais altos ganhos é uma manifestação cruel deste fato que atinge em cheio o já propagado ponto mais fraco, e também um dos mais importantes da estrutura de um filme... A sua música.


Depois de mais de uma década de decadência, a Walt Disney finalmente voltou a liderar as bilheterias e produziu o grande sucesso que é "Piratas no Caribe – O Baú da Morte". Há muito, os estúdios Disney só produziam decepções financeiras, os prêmios desapareceram, o presidente foi demitido vergonhosamente e os parques temáticos estavam definhando depois dos ataques de 11 de setembro. Se alguma coisa funcionou lá ultimamente foi a aliança com a Pixar. Pois que agora o sucesso voltou de maneira inusitada e ao custo da coerência e do bom-senso que sempre caracterizaram suas produções de êxito. Uma decisão dos executivos resolveu fazer um filme baseado num dos brinquedos da Disneyworld (os tais Piratas do Caribe) como forma de atrair mais público e tentar reerguer o complexo de diversão. Chamaram para a tarefa o mais importante produtor de Hollywood hoje, o republicano ferrenho, conservador assumido, partidário de Bush, que esteve à frente de patriotadas como Pearl Harbor e Falcão Negro em Perigo, além de alguns dos maiores sucessos nos últimos anos: Armageddon, Con-Air, A Rocha, Inimigo do Estado e Rei Arthur (este último, aparentemente, seu único fracasso). Portanto "Piratas do Caribe" se tornaria um filme de produtor, Jerry Bruckheimer, como se fazia na Hollywood dos anos 50 e 60. Juntando-se a isto, Johnny Depp que jamais havia estrelado uma produção que tivesse alcançado um sucesso inquestionável de bilheteria – com Piratas do Caribe: A Maldição do Pérola Negra, o ator finalmente tornou-se sinônimo de dinheiro em caixa. Este êxito, aliás, mais que merecido, já que grande parte do charme daquele longa residia justamente na composição corajosamente atípica de Depp. Assim encontramos "Piratas do Caribe: O baú da Morte", onde, aliás, seu personagem perde importância, sendo quase que ofuscado pela rede de incoerências que domina esta trama, onde ele é apenas mais um entre os vários personagens que perseguem o cobiçado e misterioso baú do subtítulo, cujo conteúdo pode trazer ao seu detentor um poder inigualável: enquanto procura descobrir o paradeiro do baú (e de sua chave), Sparrow deve lidar com o (supostamente) assustador capitão Davy Jones (Nighy), que alega ter direitos sobre sua alma; com seu velho conhecido Will Turner (Bloom), que precisa do auxílio do pirata para libertar sua amada Elizabeth (Knightley); com o vingativo ex-comodoro Norrington (Davenport), que atribui seu declínio ao fato de não ter conseguido executar Sparrow; e, é claro, com sua própria tripulação, que nem sempre parece estar disposta a seguir cegamente suas ordens. Deste modo, para o sucesso, tanto o produtor e empresa deixaram de lado a proposta "ingênua", segundo eles, do que seria "um filme para toda a família" e juntos fizeram um grande filme entretenimento —, longo, cansativo, de memoráveis efeitos, nenhuma coerência e de estrondoso sucesso de bilheteria; o que levaria qualquer um a concluir que assim se ganha o público, hipnotizado frente a efeitos visuais e gracinhas triviais. Portanto teremos um terceiro filme...


Assim Bruckheimer na música encontra Zimmer como seu fiel escudeiro, disposto a qualquer aforismo modista ou lampejo de "criatividade" deste produtor convicto de seus preceitos e, até então, vitorioso por isso. O que falar de "The Kraken" (Faixa 02) e seu destempero roqueiro? Como alguém que permite a adição em seu álbum, nos minutos finais (Faixa 12), por sete e terríveis minutos, de uma música disforme e aparvalhada, pode ser levado a sério? Entretanto, podemos ouvir neste álbum bons momentos como a faixa de abertura, mas há falta de homogeneidade durante nossa audição em que por momentos extensos descemos ao inferno, mas quase nunca ascendemos aos céus numa oscilação estranha e desconfortável que preferiria evitar.


Hans Zimmer e sua capacidade camaleônica de se adequar a cada filme novo sem nenhum limite ou fidelidade de estilo, certamente nunca conseguiria agradar a todos, mesmo os que em algum momento tenham gostado de algum de seus trabalhos predecessores. Seu caráter musical pautado na falta de personalidade ou claro fluxo evolutivo, nele completamente irregular, não o tornara nada confiável em mais de 20 anos de carreira onde suas obras têm sido as mais díspares possíveis, surpreendendo-nos sempre, mesmo que negativamente. Pois se em um momento demonstra certa maturidade em um filme como "Código Da Vinci", em seguida põe tudo a perder com insignificantes e apagadas criações em "Piratas do Caribe: O Baú da Morte", mesmo que em meio a momentos bons, como os que encontramos, azedam a impressão geral — que em seu caso, desde o início, e por tudo isso, sempre é marcada por desconfiança.


Assim sendo, passemos a descrição e análise faixa a faixa:


"Jack Sparrow" (Faixa 01 - 06:06): É o tema principal do score, o tema de Jack, dançante e extremamente envolvente por meio do solo de cello de Martin Tillmann na melhor tradição marinheira — um concerto para cello e orquestra. Uma opção que ajuda a tecer, com a orquestra incorporando-se progressivamente e dando corpo de waltz a melodia, um dos temas mais originais e poderosos da carreira de Zimmer.


"The Kraken" (Faixa 02 - 06:55): Se a faixa anterior nos mostra intensidade, o poder da orquestra, dos leit motivs contundentes, esta nova peça, em extremo contraste, todavia parece vir de outro mundo onde a elaborada orquestração dá lugar a simplória música pop tocada com um instrumento estranho chamado "orquestra". É uma provocação aberta a todos que amam a música orquestral, na qual Zimmer utiliza sem limites as guitarras elétricas e ritmos hardcores para construir uma bizarra passagem musical que fundamenta o tema de Kraken. A introdução do órgão para desenvolver uma das passagens melódicas, termina convertendo esta confusão musical no que poderíamos denominar réquiem roqueiro.


"Davy Jones" (Faixa 03 - 03:15): A delicadeza e intimismo da caixinha de música apresenta-se de inicio como a chave do tema de Davy Jones. Uma evocação melódica na qual, aos poucos, vão se incorporando as cordas, madeiras, coro, órgão e percussão. Ostinato que eleva o valor desta passagem, que passa do singelo ao épico, mas chegando a este, carece de maior desenvolvimento que o contrastasse melodicamente com a parte anterior.


"Ive Got My Eye on You" (Faixa 04 - 02:25): Zimmer decide lançar mão de uma paisagem mais pesada, primeiro com uma construção atmosférica opressiva e obscura, muito similar ao do primeiro "Piratas do Caribe". A este início dissonante e ameaçador juntam-se um coro extraído diretamente de "O Pacificador" e que precede o crescendo heróico do tema central composto por Badelt para o primeiro filme, desta vez por meio de uma orquestra real. A faixa termina com uma nova recapitulação do tema de Jack por meio do cello de Tillmann.


"Dinner is Served" (Faixa 05 - 01:30): A faixa se inicia com poderosas percussões, acompanhadas por um entoar étnico feminino e metais, e que de repente se transforma num elegante e, mais uma vez, divertido waltz.


"Tia Dalma" (Faixa 06 - 03:57): Em seu início trás a lembrança do tema do Pérola Negra, logo
revertendo-se num ambiente opressivo. Novamente ouvimos o lamento étnico feminino, guitarras dissonantes… Reencontramos o Zimmer de "O Código Da Vinci"? Sem dúvida, pela expressão da música assim parece com sua base nas cordas e coro espiritual. Nas cordas graves ouvimos uma variação sombria do tema de Jack. É a forma de Zimmer plasmar o encontro entre Jack e a líder voodoo.


"Two Hornpipes" (Faixa 07 - 01:14): Tema de uso escasso durante o filme, onde um acordeom e uma rabeca levam a cabo sua particular batalha de contraponto e desenvolvimento melódico. Um interessante divertimento que rompe a dinâmica melancólica na qual estava incidindo o álbum neste momento.


"A Family Affair" (Faixa 08 - 03:34): De início escutamos o esboço de um novo tema no âmago de um adágio Zimmeriano para cordas, interrompido pelo staccato das cordas que nos levam novamente ao tema do Pérola Negra na sonoridade consistente dos metais e do coro. A música ganha um vigor dramático em sua parte final por meio do solo de violino sob o comando de Hugh Marsh, desenvolvendo o tema de Davy Jones em uma versão realmente apreciável.


"Wheel of Fortune" (Faixa 09 - 06:45): Mais uma faixa de ação na melhor tradição do gênero por meio de diferentes leit motivs (o de Jack Sparrow, o principal de Piratas de Caribe, o de Davy Jones e do Kranken), no entanto, seguindo os parâmetros de Zimmer, onde a orquestra eleva sua "contribuição" através da força dos sintetizadores, com os metais alcançado pontos realmente altos, e as percussões ao máximo nível.


"You Look Good Jack" (Faixa 10 - 05:34): Sinuosa e atmosférica faixa, cuja linearidade é interrompida por uma rápida e intensa secção de ação, protagonizada pelas percussões e guitarras elétricas, antes de voltar ao campo da indefinição e incidentalidade.


"Hello Beastie" (Faixa 11 - 10:15): Aqui encontramos a faixa mais longa do álbum. Típico final Zimmeriano nos últimos anos como em "O Último Samurai", "King Arthur", "Batman Begins" ou "O Código Da Vinci"). As cordas e o coro protagonizam o desenvolvimento elegíaco da música, com acertado interlúdio do tema de Piratas do Caribe. Nada novo na carreira do compositor, mas um recurso sempre estimulante. A Faixa se finda com uma recapitulação do tema original de Jack Sparrow, mas desta vez por meio da orquestra completa.


"He is A Pirate (Tiësto Remix)" (Faixa 12 [Bonus Track] - 07:02): Quanto menos falarmos desta atrocidade perpetrada melhor... Sete lamentáveis e insuportáveis minutos de música eletrônica, onde supostamente se homenageia o tema principal de Piratas do Caribe. Um desperdício. Um insulto a qualquer entusiasta da música de cinema que compre este disco. Só isso já desqualificaria este álbum. Mas vamos ser condescendentes...


Para fazer esta resenha tive a insatisfação de assistir a um dos piores filmes ao qual já me expus... Portanto resenhar esta compilação musical não foi tarefa fácil, pois que alguns já haviam catalogado esta trilha como uma das piores da carreira do compositor alemão. Então tive que ouvir e ver para crer; e por desgraça tenho que dizer que isto está próximo da realidade, já que provavelmente este também é um dos piores filmes no qual Zimmer trabalhou.


Desvencilhando-me dos inevitáveis preconceitos, posso dizer que sua predecessora, "Piratas do Caribe: A Maldição do Pérola Negra", uma das trilhas sonoras mais controvertidas dos últimos anos, é inferior a esta nova. Em ambos os casos os scores funcionam quase que perfeitamente acoplados as imagens e indissociáveis da história... A diferença, já apontada por alguns, é de que se o primeiro era uma compilação de samples mesclada e arranjada por 10 compositores, a segunda é uma evolução lógica e amadurecida das melhores idéias de sua predecessora, com o acréscimo, é claro, do toque grosseiro, diria depravado, do rock pretendido por Bruckheimer que bem se associa a própria mentalidade rufinesca e canalha dos piratas.

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