OSCAR 2008
Uma breve resenha das partituras indicadas ao Oscar 2008 THE KITE RUNNER Alberto Iglesias "The Kite Runner" de Khaled Hosseini, livro publicada como "O Caçador de Pipas" em nosso país) é a comovedora história de dois pais e dois filhos, de sua amizade e de como o destino une vidas. De forma semelhante ao "The Constant Gardener", o compositor espanhol, Alberto Iglesias, transita nos caminhos da fusão entre a música sinfônica e a étnica. Nesta oportunidade, a sonoridade buscada é a do oriente médio, e Iglesias o faz a partir da utilização ostensiva de um heterodoxo ensamble, diferentes flautas, duduk, percussão, violão e outros instrumentos de corda, e claro as "imprescindíveis" vozes árabes solistas, em combinação com a orquestra e instrumentos eletrônicos. Em momentos como "Kite Tournament", a música adquire uma forma mais ocidental, mas o uso da instrumentação étnica mantém homogênea a partitura e permite passar de um estilo a outro de uma maneira que resulta fluida e natural. De resto, o trabalho de Iglesias apresenta diversas abordagens dramáticas: momento de uma contagiosa hipérbole, outros de serena contemplação, obscura pinceladas de suspense, musica atonal e melodias tristes. Com um conjunto de criações dissolutas, sem coesão interna além de sua instrumentação, Iglesias parece tentar — abnegado da própria musicalidade — aplicar a música como um acessório a imagem cumprindo sua função efetiva sem se ater aos "detalhes" como originalidade, coerência e conteúdo. ATONEMENT Dario Marianelli Indicado em sete categorias, "Atonement" é uma das fortes candidatas do ano e uma dos dois filmes nesta categoria que competem também pelo premio principal de melhor filme. O Trabalho de Marianeli para este filme é de natureza intimista, elegante e refinada, deliberadamente conservador no uso das harmonias, evocando assim a sonoridade característica do período romântico. Em algumas passagens o compositor acena com a inclusão de ornamentos da Nona Sinfonia de Beethoven em sua rápida escrita para cordas, que junto ao piano são grandes protagonistas da partitura. Com efeito, a orquestração de Marianelli se apóia fundamentalmente sobre os arcos, tratados em diferentes combinações que vão do tutti ao duo para cello e piano, passando pelo trio para violino, cello e piano ou ocasiões de concerto onde a orquestra acompanha o canto de algum instrumento solista como clarinete ou o cello. Na "Elegy for Dunkirk", Marianelli consegue uma bela utilização do coro masculino de forma crua, como se compusessem a cena, nos momentos mais intrigantes da partitura. Em momentos o som de uma máquina de escrever, parecendo ecoar da primeira cena como um leit motiv, é utilizado para marcar o ritmo. Pela indubitável qualidade da música, concisa e coerente, esta partitura me conquistou a preferência. MICHAEL CLAYTON James Newton Howard O que poderia explicar que esta composição absolutamente superficial tenha sido indicada como uma das melhores partituras originais? Somente o êxito do filme protagonizado por George Clooney que também concorre em outras categorias, incluído "melhor filme". James Newton Howard é sem dúvida um dos mais importantes compositores da atualidade, mas que um trabalho seja considerado um dos melhores do ano somente por cumprir discretamente seu papel, resulta, a julgar pelos últimos anos, em um dos mais repugnantes costumes deste prêmio. Não examinarei aqui o fato de a música ser ou não apropriada para o contexto do filme, mas sua pobreza resumida a passagens meramente ambientais, baseada em fundos estáticos de cordas, bases percussivas e alguns ostinatos me faz elegê-la mais desqualificada para compor este grupo. 3:10 TO YUMA Marco Beltrami Esta partitura é uma mistura muito bem acertada entre o espírito musical do "spaghetti western" patenteado pelo italiano Ennio Morricone ("Era uma Vez no Oeste", Sergio Leone, 1968)e o estilo sinfônico obscuro e austero de Jerry Fielding ("The Outlaw Josey Wales", Clint Eastwood, 1976) e as inquietantes sonoridades do thriller contemporâneo definem o trabalho de Marco Beltrami para este remake de um clássico filme de Cowboy. Cordas, violões, solos de trompete, muita percussão e timbres eletrônicos compõem o extravagante, mas efetiva ensamble instrumental a que Beltrami recorre para atualizar a sonoridade de um gênero que já transitou por diversas fases. Com efeito, ninguém deve esperar aqui as eufóricas orquestrações de um Elmer Bernstein ou um Bruce Broughton. A composição é mais rítmica e textural que melódica, sendo este último aspecto representado em sua maior parte por um enigmático motivo de três notas que acaba por adquirir conotações dramáticas e até épicos com a apropriada mudança de contexto harmônico. RATATOUILLE Michael Giacchino Apesar dos ares franceses e latinos em variadas passagens, previsível conseqüência do roteiro para o qual foi composto, o trabalho do ascendente Michael Giacchino para este filme resulta na mais Hollywoodiana dos cinco candidatos. A música se apega bastante aos cânones tradicionais das comédias de desenhos animados, com uma colorida utilização da orquestra e muitos elementos de jazz e música popular. Acordeons, violões e bateria se põem em pé de igualdade com as texturas sinfônicas para narrar as diferentes instâncias e momentos da aventura do ratinho que quer ser chef. Sem ser uma das maiores composições de Giacchino, a música não carece de energia e divertida ingenuidade.AND THE OSCAR
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